Acordo desesperada. Nem consigo abrir os olhos. Mas porque sinto tão arduamente o meu coração batendo, sei que já não estou naquele sonho. Sinto um pesar sobre o peito e um grito interno ecoa dentro de mim. Faço esforço para abrir os olhos e descubro que a minha bolsa está ao meu lado; que aquele inútil pesadelo era só uma bobagem.
Mas não era só bobagem. Era a manifestação do nível de frustração e desespero que atingi. Não só porque tenho que me manter sempre pra cima enquanto parece que todos estão rapidamente caindo num abismo de cansaço. Também porque meu computador não funciona mais e a dependência de um computador funcional nesse momento crucial do meu IB e da minha vida UWC fazem com que a situação seja, sem sombra de dúvidas, desesperadora. Tento me manter calma. Respiro debaixo da coberta e abro os olhos outra vez pra descobrir que meu despertador tocará dentro de cinco minutos.
Me pego pensando que talvez eles estejam certos. Eles todos que tiram sarro de mim por passar tanto tempo com primeiros anos. Ou eles todos que dizem brincando você vai passar o resto da vida no UWC, não? Me apavora. E suspiro, ainda ouvindo meu coração esbravejando e deixando minha respiração pesada. Por que arde tanto? Penso que talvez eu não devesse estar acordando num domingo de manhã para fazer uma viagem com primeiros anos, mas, em vez disso, eu deveria estar fazendo o mesmo que a minha colega de quarto. Acordando num domingo de manhã para estudar para os exames finais. Em menos de um mês.
Pavor. Pavor porque me assusta a ideia de pensar que não sei nada de nada. Me assusta a ideia de ficar pra trás enquanto sei que a maioria dos meus co-anos já iniciou o plano de estudos. E eu nem ao menos tenho um. Também sei que a maioria dos meus co-anos já sabe onde estará no próximo semestre. E eu nem mesmo tenho a confirmação disso.
Penso naquele momento de silêncio debaixo do céu marrom (azul? cinza? vermelho? roxo?), enquanto tentava esconder meu rosto. Porque queria esconder minhas lágrimas. Odeio chorar. E, acima de tudo, odeio chorar na frente dos outros. E sei que quando isso se torna inevitável, quando saí do meu controle, é porque o nível está alto. Mas não significa que eu esteja no abismo. E pretendo que isso esteja claro, sobretudo para mim mesma.
Meu despertador toca com a mesma música de sempre. Seixas. Levanto para me preparar, sabendo que nenhum dos três homens estará acordado quando eu os for encontrar na frente de Susac em vinte e cinco minutos. Mesmo assim, prefiro depositar um pouco de confiança. Porque já não me resta energias para não o fazê-lo.
domingo, 6 de abril de 2014
quinta-feira, 3 de abril de 2014
porque não compartilhamos dos mesmos interesses
Não lembro quais foram as exatas palavras que ela usou. Não lembro talvez porque eu tenha insistido em traduzir as palavras para que mais tarde eu as pudesse escrever em minha língua; ou talvez porque não importavam as palavras e, sim, o sentido que elas expressavam. Foi algo relacionado à importância do perdão em relação à importância do ressentimento. E eu concordei com a cabeça, debaixo do sol, deitada na grama, enquanto assoprávamos dentes-de-leão.
Talvez o fato de que eu não lembre exatamente as suas palavras esteja relacionado à maneira em que tenho vivido. Em fragmentos. Fragmentos isolados, anônimos, exaustos. Que nada mais são do que figuras que caminham na minha frente. Que nada mais é do que as palavras em francês ressonando e aqueles dedos pressionando botões numa máquina pequena e vermelha ao meu lado enquanto adormeço debaixo do sol. E viro marrom.
Esses fragmentos entre silêncios que não são estranhos; são marcas entre conhecidas que se encostam em paredes opostas ou em um pôster do Chaplin pensando em diversas modalidades de solidão e sexualidade. Uma performance. Também me disperso com as lembranças de uma infância alergênica, repleta de carrapatos - mas eles não perigosos, não? - e um cheiro que não consigo associar com nada.
Pão francês. Aquele da padaria da esquina, mas também aquele cozinhado por um bósnio que viveu uns bons anos na França. E um relato de lares roubados.
E me pergunto se há água. Não me imagino morando longe de água. E percebo que vivi a vida toda do lado de um calabouço. Um calabouço tão fixo como essa incapacidade de escrever algo livre. A incapacidade de desassociar isso daquilo. Ou aqui de mim.
Entre conversas embriagadas e sanduíches noturnos, há mais fragmentos. E há ainda mais fragmentos na falta de sono e naquele música que me traz uma paz imediata porque me lembra de uma criança dormindo no pé da cama. Criança quase emancipada, caindo no sono. Desfigura-se em conversas durante o almoço que acabam em emburramento e questionamento de mim mesma. Sem vergonha. E com pura culpa que me sobrevoa a minha mente toda vez.
Fragmento bom como aquelas cinco horas em que planejamos estudar e acabamos sentadas na minha cama. Ou ainda melhor como aquela risada por conta de uma máquina de lavar e risoto.
Ou cru como seres escondendo suas faces por medo do que veem. E quando me apaixonei por Kielowski três anos atrás, numa mera aula de filosofia, eu nunca imaginaria estar nesse fragmento de vida tão brutal. E cru.
Cru como peixe. Como isca. Mortal como a sobrevivência e as florestas nigerianas de um soza. Mortal como essas meras lembranças que são fragmentos. Tão mortais que me assusta escrevê-las. Imortal registro, fonte primária.
PS: O título dessa postagem foi completamente aleatório, relacionado à frase dita por minha colega de quarto enquanto relatava um acontecido do nosso dia para um querido primeiro ano. Essa frase foi ouvida no momento em que me peguei pensando em como nomear outro fragmento inútil e imoral como esse. E deixo outros fragmentos na pasta de rascunhos.
Talvez o fato de que eu não lembre exatamente as suas palavras esteja relacionado à maneira em que tenho vivido. Em fragmentos. Fragmentos isolados, anônimos, exaustos. Que nada mais são do que figuras que caminham na minha frente. Que nada mais é do que as palavras em francês ressonando e aqueles dedos pressionando botões numa máquina pequena e vermelha ao meu lado enquanto adormeço debaixo do sol. E viro marrom.
Esses fragmentos entre silêncios que não são estranhos; são marcas entre conhecidas que se encostam em paredes opostas ou em um pôster do Chaplin pensando em diversas modalidades de solidão e sexualidade. Uma performance. Também me disperso com as lembranças de uma infância alergênica, repleta de carrapatos - mas eles não perigosos, não? - e um cheiro que não consigo associar com nada.
Pão francês. Aquele da padaria da esquina, mas também aquele cozinhado por um bósnio que viveu uns bons anos na França. E um relato de lares roubados.
E me pergunto se há água. Não me imagino morando longe de água. E percebo que vivi a vida toda do lado de um calabouço. Um calabouço tão fixo como essa incapacidade de escrever algo livre. A incapacidade de desassociar isso daquilo. Ou aqui de mim.
Entre conversas embriagadas e sanduíches noturnos, há mais fragmentos. E há ainda mais fragmentos na falta de sono e naquele música que me traz uma paz imediata porque me lembra de uma criança dormindo no pé da cama. Criança quase emancipada, caindo no sono. Desfigura-se em conversas durante o almoço que acabam em emburramento e questionamento de mim mesma. Sem vergonha. E com pura culpa que me sobrevoa a minha mente toda vez.
Fragmento bom como aquelas cinco horas em que planejamos estudar e acabamos sentadas na minha cama. Ou ainda melhor como aquela risada por conta de uma máquina de lavar e risoto.
Ou cru como seres escondendo suas faces por medo do que veem. E quando me apaixonei por Kielowski três anos atrás, numa mera aula de filosofia, eu nunca imaginaria estar nesse fragmento de vida tão brutal. E cru.
Cru como peixe. Como isca. Mortal como a sobrevivência e as florestas nigerianas de um soza. Mortal como essas meras lembranças que são fragmentos. Tão mortais que me assusta escrevê-las. Imortal registro, fonte primária.
PS: O título dessa postagem foi completamente aleatório, relacionado à frase dita por minha colega de quarto enquanto relatava um acontecido do nosso dia para um querido primeiro ano. Essa frase foi ouvida no momento em que me peguei pensando em como nomear outro fragmento inútil e imoral como esse. E deixo outros fragmentos na pasta de rascunhos.
terça-feira, 1 de abril de 2014
mamas' room
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Background info: Depois de tanto drama pra tirar a foto do quarto 10 para o Yearbook, finalmente agendamos a presença de pelo menos uma grande parte dos "moradores" do #10. Minha cama à esquerda (com um bando de firsties nela) e acama da Eli à direita, abaixo da bandeira de Pace.
Na frente: eu e Eli.
De cima pra baixo: Louisa (França), Anette (Noruega), Mandula (Países Baixos), Malak (Egito), Lucas (Brasil) e Simon (Bélgica).
sexta-feira, 28 de março de 2014
fragmentos (destruídos, em tradução)
- Sinto falta do Lucas.
- Nem me fale...
- É?
(Respiro fundo. Frustrada. Cansada. Sentimental)
(Respiro fundo. Frustrada. Cansada. Sentimental)
- Sim. Nos últimos dois meses, eu estive
tentado organizar uma sessão latina...
- É... Mas, sabe, é estranho. Ontem, na praia
debaixo da Ponte Velha, eu vi a Marta, o Simon e você abraçando e eu senti que
vocês eram minha família. De verdade, Sof, é muito estranho! Realmente senti
como se vocês fossem minha família, um carinho muito imenso. Muito, muito
esquisito.
(As lágrimas ameaçam. Não vêm. Mas eu as sinto escorrer por dentro de minhas vértebras. Vermes.)
(As lágrimas ameaçam. Não vêm. Mas eu as sinto escorrer por dentro de minhas vértebras. Vermes.)
- Eu sei. Também não consigo entender. Mas
somos. Realmente sinto como se vocês fossem meus babies.
- Eu vou sentir muito a sua falta ano que
vem.
(Pronto! Aí está, Maon! Agora posso ser a resistente. A indiferente. Mas sei que é verdade. E me confundo com essa mistura de reações.)
(Pronto! Aí está, Maon! Agora posso ser a resistente. A indiferente. Mas sei que é verdade. E me confundo com essa mistura de reações.)
- Eu vou estar pertinho.
- Eu sei. Mas eu vou sentir falta de ter
você na minha vida. Você vai ser uma memória muito boa.
- Você também.
- Espero que sim. Você já sabe o que você
vai fazer? É oficial?
(Tremo. Apavoro. Quero cuspir tudo que se embaralha na minha cabeça.)
(Tremo. Apavoro. Quero cuspir tudo que se embaralha na minha cabeça.)
- Não é oficial, mas, bom, eu vou pra
Alemanha, é isso. E você tem que me visitar.
- Bom, agora eu tenho alguma razão para conhecer a Alemanha. E uma muito boa.
- Olha! Vênus!
- Onde estão minhas Três Sofias?
segunda-feira, 24 de março de 2014
a lei natural dos encontros
Tenho uma mania de criar teorias sobre o contato social e sobre a cultura do UWC Mostar. Há the balance theory, the generations pattern (não é minha criação e não concordo com ela), e a two types.
Gosto de pensar que há dois tipos de pessoas nesse colégio - e não ignoro as exceções. Há as pessoas que permanecem em seu quarto e recebem visitas. E há as pessoas que visitam, que raramente são encontradas em seus quartos.
Durante meu um ano e meio morando em Musala, sempre me coloquei na segunda categoria. O #8 e o #1 nunca foram necessariamente lugares de descanso, de calma. É verdade que no último meio ano o #1 se tornou ponto de visita também, enquanto me encontrava com mais pessoas sentadas na minha cama do que eu jamais imaginaria que caberia. Mas o #8 nunca foi ponto de visita e devo admitir que parte disso foi simplesmente porque eu nunca estive por lá, a não ser nas madrugadas viradas olhando para as cores amarelo, verde e azul do lado de fora. Durante meu ano e meio morando em Musala, eu me aventurava em dar boa noite de quarto em quarto nas noites em que meu humor estava em euforia.
A minha mudança pra Susac me trouxe pra categoria um. E isso me foi absurdamente estranho no começo, quando não fazia sentido sair do quarto pra procurar meus amigos, porque eles geralmente já estavam lá quando eu chegava. Então me instalei nessa categoria, na zona de conforto do #10, com as madrugadas cheias de café e a luz acesa mesmo que Eli já tenha adormecido.
Agora, retorno. E me pergunto que diabos isso significa.
Retrocesso?
Me carrego para uma semana em Musala. Sem saber o que vai ser desses loucos dias que estão por vir, com uma Conferência se aproximando e prazos finais do IB. Mas no final das contas estou agradecida que meus próximos dias não sejam sobre mim, que eu não tenha que priorizar minhas próprias responsabilidades.
Gosto de pensar que há dois tipos de pessoas nesse colégio - e não ignoro as exceções. Há as pessoas que permanecem em seu quarto e recebem visitas. E há as pessoas que visitam, que raramente são encontradas em seus quartos.
Durante meu um ano e meio morando em Musala, sempre me coloquei na segunda categoria. O #8 e o #1 nunca foram necessariamente lugares de descanso, de calma. É verdade que no último meio ano o #1 se tornou ponto de visita também, enquanto me encontrava com mais pessoas sentadas na minha cama do que eu jamais imaginaria que caberia. Mas o #8 nunca foi ponto de visita e devo admitir que parte disso foi simplesmente porque eu nunca estive por lá, a não ser nas madrugadas viradas olhando para as cores amarelo, verde e azul do lado de fora. Durante meu ano e meio morando em Musala, eu me aventurava em dar boa noite de quarto em quarto nas noites em que meu humor estava em euforia.
A minha mudança pra Susac me trouxe pra categoria um. E isso me foi absurdamente estranho no começo, quando não fazia sentido sair do quarto pra procurar meus amigos, porque eles geralmente já estavam lá quando eu chegava. Então me instalei nessa categoria, na zona de conforto do #10, com as madrugadas cheias de café e a luz acesa mesmo que Eli já tenha adormecido.
Agora, retorno. E me pergunto que diabos isso significa.
Retrocesso?
Me carrego para uma semana em Musala. Sem saber o que vai ser desses loucos dias que estão por vir, com uma Conferência se aproximando e prazos finais do IB. Mas no final das contas estou agradecida que meus próximos dias não sejam sobre mim, que eu não tenha que priorizar minhas próprias responsabilidades.
sábado, 22 de março de 2014
na lista das melhores sonecas
(escrito na madrugada do dia 19 de março de 2014)
me perdi na beira do mar
Sinto falta da praia.
beira do mar, lugar comum
Beira do mar, todo mar é um
Começo do caminhar
Pra dentro do fundo azul
Tudo isso vem, tudo isso vai
Pro mesmo lugar
De onde tudo saiu
me perdi na beira do mar
Sinto falta da praia.
~~
Fui-me e desapareci no infinito desejo de existir no presente. E perdi o meu futuro. Por querer tanto estar e ser. Se mereci, então, cabe a mim entender e pisar com as pontas dos pés próximo à água do mar.
Sem medo de me perder.
(escrito em algum lugar da costa croata no dia 22 de março de 2014)
beira do mar, lugar comum
(...) E penso que crescer em praias de areia me fez imaginar que o solo da praia era estático, não se movia. Só a água se movia. E já havia ouvido dizer que a areia se movia, mas pensava que ela o fazia quando ninguém estava olhando. Ela parecia tão calma e aglutinada debaixo de mim, debaixo da espuma das ondas. E eu adorava caçar aqueles pequenos bichinhos que pegavam jacaré para chegar na praia e se enterrar ali na areia. Era um passatempo e tanto.
E agora penso que as praia de pedra não são mágicas dessa forma. Mas são mágicas pelo barulho das pedras dançantes quando a onda retorna para o mar. A água as suga como se esperasse trazê-las de volta. Desmanchando a (in)existente formação.
Beira do mar, todo mar é um
Começo do caminhar
Pra dentro do fundo azul
Tudo isso vem, tudo isso vai
Pro mesmo lugar
De onde tudo saiu
quarta-feira, 19 de março de 2014
os da minha rua (ou bolo-de-peixe e marca-texto)
Não sei qual foi a última vez que falei com o abacateiro, e, na verdade, acho que faz tanto tempo que passei por essa transição que acaba fazendo sentido eu não ser capaz de resgatar nenhuma memória, embora pareça idiota que abacateiros não falem mais enquanto me deparo com gatos falantes chamados Roberto, que se esgueiram para trás da parede de escala - ah, se eu fosse um gato! - e permanecem sorrateiros mesmo com os chamados em voz fina - "mali, dođi vamo" -, especialmente porque penso que se eu fosse Roberto não perderia a oportunidade de escapar do quarto e deixar uma mensagem em marca-texto verde - good night - e deixar o cheiro do bolo-de-peixe cozinhado no primeiro andar, sem ter ao menos me perguntado sobre as risadas que haviam irritado o sótão inteiro só por causa de um esquete que nem mesmo foi atuado.
domingo, 16 de março de 2014
os ais e os hão de ser
Uma das primeiras coisas que eu aprendi na vida foi que tudo passa. Quando eu caí da escada na chácara da minha avó, quando meu pai acidentalmente queimou meu rosto ou quando aos catorze anos entrei numa difícil crise psicológica, era só isso que me diziam. Que tudo passa. Que passa quando casa. Passa como os aviões e as vuvuzelas de plantão.
Paixões também passam; por isso nunca consegui me jogar de cabeça nelas. Por isso por certo tempo acreditei que não havia mais a leitura em mim, que havia perdido esse sou passado. Porque passou. Amizades passam também. E o que há de tão cruel nisso? Somos moveis - e não moveis de enfeite, mas moveis perambulantes.
E tudo isso porque quero deixar aqui declarado o quanto odeio a palavra nunca. Odeio quando me dizem que eu sou incapaz de fazer algo, mas muito mais quando me dizem que eu nunca vou poder fazer algo. E detesto desde as minhas entranhas até o produtor das minhas lágrimas de raiva essa volatilidade do tempo. Porque está tudo na sua cabeça e, se você me dá licença, eu prefiro ficar com a minha própria e não aceitar o uso constante da palavra nunca. E aceite, por favor, que a palavra último pra mim tem conotações primaveris, doces e somáticas, que prefiro não carregar esse tipo de angustia junto ao meu corpo.
Paixões também passam; por isso nunca consegui me jogar de cabeça nelas. Por isso por certo tempo acreditei que não havia mais a leitura em mim, que havia perdido esse sou passado. Porque passou. Amizades passam também. E o que há de tão cruel nisso? Somos moveis - e não moveis de enfeite, mas moveis perambulantes.
E tudo isso porque quero deixar aqui declarado o quanto odeio a palavra nunca. Odeio quando me dizem que eu sou incapaz de fazer algo, mas muito mais quando me dizem que eu nunca vou poder fazer algo. E detesto desde as minhas entranhas até o produtor das minhas lágrimas de raiva essa volatilidade do tempo. Porque está tudo na sua cabeça e, se você me dá licença, eu prefiro ficar com a minha própria e não aceitar o uso constante da palavra nunca. E aceite, por favor, que a palavra último pra mim tem conotações primaveris, doces e somáticas, que prefiro não carregar esse tipo de angustia junto ao meu corpo.
segunda-feira, 10 de março de 2014
o que há atrás das placas pretas (ou I tried really hard to fake it but I couldn't)
Corpos - corpuses - agonizam em silêncio. Estáticos, paralisados. Prendem o riso, o choro, a ânsia de se esconder. A ansiedade oculta detrás dos tons vermelhos e pretos. A luz pulsante e irritante acima de suas cabeças, esquentando o topo da nossa mente, o cérebro, os nervos que nos permitem memorizar nossas falas. Então seus corpos se misturam ao nossos, se aglutinam, se esgueiram por entre nossas pesadas excelências. Como sotaques do sul (e aquela minha cuia desaparecida). Nos invadem. E quase pulo da cadeira, achando que é a hora, mas ela segura minha mão com força e permanecemos ali nas cadeiras na lateral do palco. Ou da plateia.
Nos levantamos e caminhando para trás da placas pretas. E é então quando começo a sorrir inusitadamente. Porque não há cortinas, nem coxias, nem peça. Há nós, vaginas. Unidas.
Pussies unite!
E aqueles sussurros desesperados.
Pussies unite!
E aqueles sussurros desesperados.
Cantando, atiçados.
Com medo. Ariscos.
Somos peças fundamentais do que vem a seguir. Dos monólogos ensaiados de pedaços certeiros.
Há meu medo, o seu, o nosso.
Atrás das placas pretas, há abraços confortáveis (e outros nem tanto) de apoio.
Incentivo.
Atrás das placas pretas, pode-se ouvir a vibração de ossos. De corpos. De pele, mãos, pés. Tudo se mexe involuntariamente.
Atrás das placas pretas, pode-se tocar a invasão daquele cheiro de entusiasmo. Ilustrativo. Emergente.
Salta de corpo em corpo, de boca em boca, de passo em passo. Cafajeste. Nos suga.
Atrás das placas pretas, há a certeza de cheirar o que acontece do outro lado das placas pretas.
E é atrás da placas pretas em que vive a magia de estar no palco. Sem coxias, sem pressa, sem atraso, sem nervosismo. Porque somos vaginas. Somos cruas, puras, abertas, ansiosas. Somos inseguras. E estamos atrás de placas pretas, no aguardo do palco-plateia.
E termino a noite pensando que começos são melhores que finais. Mas digo isso pensando especialmente nas placas pretas e pensando no orgulho que tenho dos que me cercam.
quinta-feira, 6 de março de 2014
sobre finais e cantorias
Sabe quando o livro acaba sem continuação?
Ou melhor: sabe quando você já está nas últimas páginas do livro e sabe que a história acabará de forma incompleta? Quando você sabe que não importa o quanto venha a seguir, quantos eventos acumulados, mortes inesperadas e avalanches de realização. Que de uma forma ou de outra a história estará inacabada.
Ou não. Talvez o final da história seja a ausência dele.
Mas, é isso: me sinto nas últimas páginas de uma história, sabendo que o fim não será suficiente. E me encontro agonizando entre a contradição dos meus oitos e dos meus oitentas.
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Ou melhor: sabe quando você já está nas últimas páginas do livro e sabe que a história acabará de forma incompleta? Quando você sabe que não importa o quanto venha a seguir, quantos eventos acumulados, mortes inesperadas e avalanches de realização. Que de uma forma ou de outra a história estará inacabada.
Ou não. Talvez o final da história seja a ausência dele.
Mas, é isso: me sinto nas últimas páginas de uma história, sabendo que o fim não será suficiente. E me encontro agonizando entre a contradição dos meus oitos e dos meus oitentas.
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Drummond de Andrade
domingo, 2 de março de 2014
esmeraldas e marisois
Resolvi deixar aqui um pouco de background sobre o post anterior, porque me parece que, caso você, leitor (quem quer que seja), não esteja informado sobre a minha vida, meus últimos escritos nessa Escala não fazem o menor sentido... O menor senso de tempo, espaço ou atividades.
Depois de uma semana fatigante, na qual a minha mente se mostrou muito mais exausta que meu corpo - pra contradizer tudo que já vivi nesse lugar -, parti. Na quinta-feira, após um trágico exame oral de inglês e um excelente de espanhol, deixei Mostar com Marta, Nouf e Paula. Outra vez (e provavelmente a última) para ir a Sarajevo. Nos encontramos outra vez em Ljubicica, naquele canto de Barščaršija, depois de termos passado pela padaria francesa e nos deliciado com croissants e pães maravilhosos. O que preencheu nossa tarde foi aquela sensação que tivemos enquanto nos aventurávamos por livrarias e papelarias... como crianças na véspera do Natal.
Acabamos em Gold Fish com nossos novos cadernos, escrevendo e escrevendo. Naquela mesma mesa. Com a mesma apreciação do silêncio, mas uma notável diferença na presença de cada uma de nós. E nos dirigimos à Chipas e, por fim, ao Guinness Pub. Como sabíamos que seria; como foi da outra vez. E quando deu meia noite, celebramos o aniversário de Marta, nascida no dia 29 de fevereiro, com quatro velas e meia. E várias višnjas. A noite acabou com "This is the A-R-E-A of L-O-V-E" gravado na parede. Feliz cumple, Martita!
Na manhã seguinte, parti para Tuzla com Bo e Markéta. Exatamente um ano atrás, havíamos nos aventurado juntas para Dubrovink e, ali estávamos, mais velhas, mais maduras (?). Um ano passado. Quando chegamos em Tuzla, Markéta partiu pra Belgrado e Bo e eu nos instalamos no Apartamant 03. Tuzla me deu uma nova noção sobre o país, com seus compridos prédios e seu espaço público mal utilizado.
Na tarde seguinte, pegamos o ônibus pra Srebrenica.
Background: Srebrenica é uma cidade no nordeste da Bósnia&Herzegovina, muito próxima à fronteira com a Sérvia. Resumidamente, durante a guerra, Srebrenica era uma enclave protegida da ONU. Grande parte da população era bosniak. Em 11 de julho de 1995, cerca de dez mil (de uma população de trinta e dois mil) foram assassinados. O genocídio mais recente da Europa. Os Países Baixos tiveram um papel muito importante em proteger a enclave (o que não deu muito certo) e, por esse e outros motivos, Bo sempre quis conhecer Srebrenica. E eu também. Mas foi um tanto irônico que acabássemos somente encontrando tempo para visitar a cidade no feriado da Independência da Bósnia. A mesma independência que influenciou a invasão sérvia no Leste do país.
Srebrenica não é nem de longe destruída e triste como imaginávamos que seria. Um pequeno vilarejo com uma população atual de cerca de duas mil pessoas. Cinquenta por cento bosníaca, cinquenta por cento bósnio-sérvia. Cirílicos e latim. Uma cidade fantasma, com algumas ruínas e várias casas reconstruídas. Vários cães perdidos, como em todas as cidades desse país. A atmosfera não era pesada como eu imaginei que fosse ser. E Bo e eu nos aventuramos a caminhar seis quilômetros estrada abaixo para encontrar o memorial do massacre. O resto é autoexplicativo (ou pode ser encontrado abaixo). E foi seguido por uma caminhada matutina a uma fortaleza, uma casa abandonada e uma fonte de água. E um retorno mágico a Mostar, com a alegria no peito. Refreshment.
PS: Por conta da minha câmera quebrada, não pude tirar verdadeiras fotos. Tirei algumas com a pequena câmera de Bo e com a câmera de Marta. Cá estão algumas.
PS2: Vou guardar pra sempre na memória aquele sorriso vibrante, genuinamente alegre, no rosto de Marta após receber o presente de aniversário de Paula. Sou cursi e sei: mas há amizades que nos deixam felizes só de ver. E, naquele momento, em Gold Fish, eu sentia essa felicidade inexplicável por uma amizade alheia. Mas não tão alheia assim.
Depois de uma semana fatigante, na qual a minha mente se mostrou muito mais exausta que meu corpo - pra contradizer tudo que já vivi nesse lugar -, parti. Na quinta-feira, após um trágico exame oral de inglês e um excelente de espanhol, deixei Mostar com Marta, Nouf e Paula. Outra vez (e provavelmente a última) para ir a Sarajevo. Nos encontramos outra vez em Ljubicica, naquele canto de Barščaršija, depois de termos passado pela padaria francesa e nos deliciado com croissants e pães maravilhosos. O que preencheu nossa tarde foi aquela sensação que tivemos enquanto nos aventurávamos por livrarias e papelarias... como crianças na véspera do Natal.
Acabamos em Gold Fish com nossos novos cadernos, escrevendo e escrevendo. Naquela mesma mesa. Com a mesma apreciação do silêncio, mas uma notável diferença na presença de cada uma de nós. E nos dirigimos à Chipas e, por fim, ao Guinness Pub. Como sabíamos que seria; como foi da outra vez. E quando deu meia noite, celebramos o aniversário de Marta, nascida no dia 29 de fevereiro, com quatro velas e meia. E várias višnjas. A noite acabou com "This is the A-R-E-A of L-O-V-E" gravado na parede. Feliz cumple, Martita!
Na manhã seguinte, parti para Tuzla com Bo e Markéta. Exatamente um ano atrás, havíamos nos aventurado juntas para Dubrovink e, ali estávamos, mais velhas, mais maduras (?). Um ano passado. Quando chegamos em Tuzla, Markéta partiu pra Belgrado e Bo e eu nos instalamos no Apartamant 03. Tuzla me deu uma nova noção sobre o país, com seus compridos prédios e seu espaço público mal utilizado.
Na tarde seguinte, pegamos o ônibus pra Srebrenica.
Background: Srebrenica é uma cidade no nordeste da Bósnia&Herzegovina, muito próxima à fronteira com a Sérvia. Resumidamente, durante a guerra, Srebrenica era uma enclave protegida da ONU. Grande parte da população era bosniak. Em 11 de julho de 1995, cerca de dez mil (de uma população de trinta e dois mil) foram assassinados. O genocídio mais recente da Europa. Os Países Baixos tiveram um papel muito importante em proteger a enclave (o que não deu muito certo) e, por esse e outros motivos, Bo sempre quis conhecer Srebrenica. E eu também. Mas foi um tanto irônico que acabássemos somente encontrando tempo para visitar a cidade no feriado da Independência da Bósnia. A mesma independência que influenciou a invasão sérvia no Leste do país.
Srebrenica não é nem de longe destruída e triste como imaginávamos que seria. Um pequeno vilarejo com uma população atual de cerca de duas mil pessoas. Cinquenta por cento bosníaca, cinquenta por cento bósnio-sérvia. Cirílicos e latim. Uma cidade fantasma, com algumas ruínas e várias casas reconstruídas. Vários cães perdidos, como em todas as cidades desse país. A atmosfera não era pesada como eu imaginei que fosse ser. E Bo e eu nos aventuramos a caminhar seis quilômetros estrada abaixo para encontrar o memorial do massacre. O resto é autoexplicativo (ou pode ser encontrado abaixo). E foi seguido por uma caminhada matutina a uma fortaleza, uma casa abandonada e uma fonte de água. E um retorno mágico a Mostar, com a alegria no peito. Refreshment.
PS: Por conta da minha câmera quebrada, não pude tirar verdadeiras fotos. Tirei algumas com a pequena câmera de Bo e com a câmera de Marta. Cá estão algumas.
Desenho de uma capela
Famosa água de Srebrenica
PS2: Vou guardar pra sempre na memória aquele sorriso vibrante, genuinamente alegre, no rosto de Marta após receber o presente de aniversário de Paula. Sou cursi e sei: mas há amizades que nos deixam felizes só de ver. E, naquele momento, em Gold Fish, eu sentia essa felicidade inexplicável por uma amizade alheia. Mas não tão alheia assim.
sábado, 1 de março de 2014
memorijalni centar (ou última ponta do triângulo)
Parecia-lhe ridículo que não fosse capaz de escrever. Em vez disso, tirou o caderno da bolsa e começou a desenhar. E nem mesmo desenhar conseguiu, porque perdeu a completa noção de perspectiva. Aquelas linhas não faziam sentido. Tentou uma, duas, três vezes e acabou por se encontrar desenhando no escuro, sem saber direito onde deixava traços de grafite no papel. Finalizou o desenho com a rosa, a rosa deitada em cima de todos aqueles nomes. Nomes repetidos insólitas vezes.
E pôs-se a caminhar, notando finalmente aqueles blocos brancos. E, naquela escuridão da noite de sábado na beira da estrada, teve a sensação estranha de se encontrar na França, naquela manhã de agosto, enquanto andava de bicicleta por entre vinhedos. A sensação dos vinhedos: uvas abrochando, quase prontas para serem conservadas e transformadas em vinho. Algo nascendo, crescendo, vivendo. E naquele vinhedo francês, podiam-se distinguir os corredores que eram criados pela organizada formação dos arbustos. Tinha uma urgência de pular da bicicleta e correr por aqueles corredores, sem saber se encontrar naquele labirinto de vida e cores, debaixo do sol de verão.
Mas estava num lugar completamente diferente. E em vez de passear pelos corredores, se arrastava lentamente por entre os caminhos de ladrilhos. Paulatinamente, sem pressa, sem prece.
Parcela M5.
Sentia-se embriagada com aquela sensação de vazio que havia preparado dentro de si para uma invasão insueta que não viera. Deadly silence. Só ouvia o saco plástico amarelo batendo de encontro ao seu próprio corpo. Não havia nada para preenchê-la.
“Should we go? I am a bit creeped out.”
A outra sorriu.
E, assim, partiram numa van policial - no mesmo dia em que pularam a cerca de uma capela. Era escuro e o vinhedo ficava pra trás, com o mesmo vazio pleno com que havia aparecido no horizonte antes do sol se pôr.
“I couldn’t understand how they can be all the same, while there are completely different stories behind each single one of them.”
“They were all the same in their death. They were all the enemy.”
E pôs-se a caminhar, notando finalmente aqueles blocos brancos. E, naquela escuridão da noite de sábado na beira da estrada, teve a sensação estranha de se encontrar na França, naquela manhã de agosto, enquanto andava de bicicleta por entre vinhedos. A sensação dos vinhedos: uvas abrochando, quase prontas para serem conservadas e transformadas em vinho. Algo nascendo, crescendo, vivendo. E naquele vinhedo francês, podiam-se distinguir os corredores que eram criados pela organizada formação dos arbustos. Tinha uma urgência de pular da bicicleta e correr por aqueles corredores, sem saber se encontrar naquele labirinto de vida e cores, debaixo do sol de verão.
Mas estava num lugar completamente diferente. E em vez de passear pelos corredores, se arrastava lentamente por entre os caminhos de ladrilhos. Paulatinamente, sem pressa, sem prece.
Parcela M5.
Sentia-se embriagada com aquela sensação de vazio que havia preparado dentro de si para uma invasão insueta que não viera. Deadly silence. Só ouvia o saco plástico amarelo batendo de encontro ao seu próprio corpo. Não havia nada para preenchê-la.
Tentava trocar o ângulo de visão, tentando se livrar da sensação do vinhedo. Mas não podia. Porque não havia direção na qual olhasse em que não pudesse distinguir corredores. Corredores formados por figuras vestidas de branco, imobilizadas, estáticas, empalhadas. Era isso que via e não aqueles polidos blocos brancos pontiagudos que preenchiam sua visão. Não conseguia escapar dos atrativos corredores que a puxavam para que corresse por entre eles, brincando de esconde-esconde. Eram figuras mortas deitadas debaixo da terra, gritando por socorro dentro de pedras brancas amadurecidas. Cortantes, falsas, esmaltadas.
8372.
Se encontraram no meio do caminho ("why that one?" "because... I don't know") e avançaram juntas. Eram só elas duas. I wonder what the empty spaces are. E torneiras, várias torneiras diferentes, sem sentido algum. Umas de rosca, outras de alavanca. Finalizaram juntas, de frente ao portão fechado. 8372.
“Should we go? I am a bit creeped out.”
A outra sorriu.
E, assim, partiram numa van policial - no mesmo dia em que pularam a cerca de uma capela. Era escuro e o vinhedo ficava pra trás, com o mesmo vazio pleno com que havia aparecido no horizonte antes do sol se pôr.
“I couldn’t understand how they can be all the same, while there are completely different stories behind each single one of them.”
“They were all the same in their death. They were all the enemy.”
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