domingo, 18 de agosto de 2013
you ain't never going to shake this sense of sadness
Foi bom rever meus co-anos. Pouquíssimos chegaram, pra falar a verdade; mas cada abraço que eu dei foi delicioso, foi uma alegria só. Mas não me pareceu o que eu achei que seria. Não foi um entusiasmado olá, de tanta ansiedade pra chegada dos primeiros anos e dos co-anos. Muito pelo contrário. Me pareceu como se estivéssemos todos aqui, nunca tivéssemos ido embora e, as pessoas que ainda não chegaram, só foram embora por um final de semana muito curtinho. Os primeiros co-anos com quem eu sentei e conversei me deixaram emocionada. Não só porque eu, Sarah (França/Alemanha), Chloe (Reino Unido) e Erika (EUA) sentamos na varanda que costumava ser Bo's (onde passei muito tempo do meu primeiro ano), mas porque parecia tão... bonito. Com aquela vista da mesquita e da cruz do topo da montanha, tudo parecia surreal. Mas aí fomos dormir e quando eu acordei, a rotina de Mostar estava de volta. Quando encontrei Mario (Espanha) pela manhã, quando corri pra Susac pra encontrá-lo (embora tenha feito o mesmo na noite anterior, mas ele não tinha pegado o ônibus...), abracei ele e de repente foi tão 'chato', tão banal, tão dia-a-dia. Nem foi como se tivéssemos ficado todo esse tempo sem se ver. Ainda mais quando nos sentamos em Del Rio juntos, agradecendo pelo ar condicionado e conversando sobre coisas de Mario e Sofia... Até ter um jantar com Bo, Markéta e a família de Markéta foi tão natural... Depois caminhar pra Old Man's juntas, encontrar co-anos (e até se deparar com uma segundo ano!)... Tão comum, tão natural, tão usual... Não é o big deal que todos fazem; especialmente porque o único momento em que eu realmente tive tempo de sentir falta de segundos anos foi quando me encontrei abrindo a caixa que Celia (Espanha) deixou pra mim, ler sua carta... e também achar o cumbuca amarela que Liza (EUA) deixou pra mim e o ursinho de pelúcia que Colleen (EUA) deixou pra mim. Mas o cansaço de tentar arrumar meu quarto e poder curtir tempo com meus co-anos e ainda tentar ajudar Maja (a house mom de Susac) a organizar a residência simplesmente me impossibilitou de pensar em qualquer coisa que não fosse... nada... e tudo ao mesmo tempo. Pelo menos, agora não estou sozinha no quarto, já que Amina chegou hoje.
sábado, 17 de agosto de 2013
quase esqueci, quase fui, quase serei
Comia stroopwafels no trem. Empurrava o balanço de uma garotinha de Martinica que insistia em falar francês comigo, mesmo sabendo que eu não a entendia. Depois tive a viagem mais longa da minha vida, em que senti as olheiras debaixo dos meus olhos crescendo, se tornando mais e mais escuras, profundas enquanto as horas passavam e eu não comia, nem dormia, nem descansava. Ônibus, trem, museus maravilhosos (Anne Frank, Foam e Amsterdam Museum), trem, horas e horas nas poltronas pretas de Schiphol sem conseguir pregar os olhos (assim como o homem que tentava dormir nas poltronas à minha frente e demos risada um pro outro quando fomos acordados pela quarta vez em menos de meia hora), avião, avião, taxi, ônibus... Dois dias muito, muito longos de viagem que não me possibilitaram descansar, nem pensar, nem ler o tanto quanto eu gostaria. Nem consegui explorar Amsterdam tanto quanto eu queria, pois minhas costas, meus pés, meus joelhos, meus ombros me imploravam que eu parasse de ser tão... imprevisivelmente apreciadora. Me falta palavras agora... Pra descrever aquele cansaço, aquela dor nas costas que parecia que eu nunca superaria. E também aquela fome que não era mais fome enquanto eu devorava um sanduíche feito por Sarah e um saco de salgadinhos que me deixava enjoada, mas me ajudava a saciar aquela ausência estranha. Nunca tomei um avião tão terrível como aquele de Zagreb pra Sarajevo; minha poltrona era do lado da asa daquele mini avião cuja asa era na verdade algo que girava absurdamente rápido e produzia um barulho insuportável. Minha viagem de ônibus de Sarajevo pra Mostar foi fantástica; foi como se eu nunca tivesse passado por aquela estrada, visto aquelas casas todas furadas por marcas de bala; como se eu nunca tivesse ficado de queixo caído, espantada com a beleza do Rio Neretva que segue até Mostar. E toda vez que eu via uma placa sinalizando quantos quilômetros faltavam pra Mostar, eu abria um sorriso e, ao mesmo tempo, uma parte em mim gritava por socorro, desesperada, sem saber o que eu estava fazendo ali, chegando como uma segundo ano. Uma parte de mim gritava, desejando que aquela fosse realmente a primeira vez que eu tomava aquela estrada de Sarajevo pra Mostar e não a penúltima. Mas sem dramas: tentei me segurar, aguentar, enfrentar.
Quando pisei em Mostar, tentaram me oferecer hospedagem e eu dei risada. Óbvio que eu pareço uma mera turista perdida com meus 20 kg nas costas, minha mochila e a bolsa da minha câmera. Fui parar em Abrasevic com uma garota alemã da primeira geração do UWC Mostar, com quem cruzei em frente à Musala. Encontrei Valentina, a diretora do colégio, tomei um suco com as duas e fui encontrar Haimeng (China) na casa de Ljubica (professora de alemão), onde passaria duas noites. Queria ir pra cama logo, mas Valentina insistiu que fôssemos comer um cevapi. Fui dormir como se fosse a primeira vez em meses.
Acordei e não percebi que era Mostar. Aquele calor, aquele cama. Não sabia onde estava. Levantei e me dei conta... Sentei na mesa e passei o dia todo escrevendo minha monografia, tentando me concentrar. E fui finalmente convencida a largar a tentativa de concentração para encontrar Markéta em No Flash. Foi como se nunca tivéssemos deixado Mostar. Meu primeiro ano embarcou hoje, deixou a casa, a família, a namorada e Brasília. Me faz perceber.... tanto.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
no peito dos desafinados
Quando Sarah dobrou a esquina e me encontrou ali, no meio da Place de l'Étoile, estava ali, sentada num banco de madeira, com a bolsa da minha câmera no meu colo, minha mochila ao meu lado e minha backpack na minha frente, assistindo as pessoas passarem naquela manhã nublada. Caminhamos por Strasbourg, embora meu mal humor não nos tenha deixado ir tão longe, já que o cansaço da viagem de ônibus, as três horas dormidas, os vinte quilos nas minhas costas e a falta de sol se uniram contra nosso passeio pela cidade. Visitamos o Museu da Alsace, o que nos fez perder o trem pro vilarejo de Sarah; tivemos que enrolar por mais duas horas pela cidade pra tomar o próximo trem. Isso nos rendeu um café enquanto nos escondíamos da chuva e tive a felicidade de ouvir João Gilberto tocando naquele pequeno lugar, numa esquina, em frente à Rue des Étudiants. Não consegui dormir o tão cedo quanto queria, por conta de milhões de mensagens e emails e de finalmente descobrir meu novo quarto e falar com minhas novas colegas de quarto (todas minhas co-anos, infelizmente, mas todas queridas).
Fui acordada bem cedo por Sarah. Nem fazia ideia de o quão agitado o dia seria. Pegamos bicicletas e pedalamos por Wissembourg. Passamos por três padarias diferentes, pra comprar coisas diferentes. Comprar baguetes, croissants, pretzels e outros tipos de pão que eu nem sei o nome. Uma experiência bem francesa. Tomamos um delicioso café da manhã que me fez pensar que eu não precisava e não iria mais comer no dia - estava muito errada. Dessa vez, pegamos só uma bicicleta: Sarah pedalando e eu sentada na frente, rindo muito de nervoso, de medo de cair. Fomos para uma casa não muito longe para cavalgar. Primeira vez que cavalguei sem cela, sobre um belo cavalo chamado Feeling. Sarah disse que eu e Feeling éramos muito parecidos: os dois "bronzeados" e morenos; dei risada. Voltamos pra casa e almoçamos (mais queijo!). Saímos de casa com as bicicletas pra encontrar um amigo dela, pra sair num tour fotográfico por Wissembourg. Terminamos o tour sentados numa pâtisserie caríssima - uma das melhores da França - comendo um doce maravilhoso que me custou os olhos da cara, mas valeu a pena. Fomos então pra uma crêperie, onde encontramos duas amigas - muito francesas - de Sarah e comemos galettes (farinha de trigo sarraceno!) muito boas, que acabaram com qualquer espaço que eu ainda tivesse no meu estômago. Pedalamos de volta pra casa; eu já cansadíssima. E aqui deixo uma descrição sucinta do meu tempo passado na Alsácia, um lugar incrível, nessa casa doida em que não há uma língua oficial. O pai de Sarah é alemão e a mãe de Sarah é francesa, mas ambos se conheceram na Inglaterra e a língua na qual eles só comunicam é inglês. No entanto, Sarah fala francês com a mãe e alemão com o pai. Tudo sobre a Alsácia é meio doido e incrível, me parece.
Fui acordada bem cedo por Sarah. Nem fazia ideia de o quão agitado o dia seria. Pegamos bicicletas e pedalamos por Wissembourg. Passamos por três padarias diferentes, pra comprar coisas diferentes. Comprar baguetes, croissants, pretzels e outros tipos de pão que eu nem sei o nome. Uma experiência bem francesa. Tomamos um delicioso café da manhã que me fez pensar que eu não precisava e não iria mais comer no dia - estava muito errada. Dessa vez, pegamos só uma bicicleta: Sarah pedalando e eu sentada na frente, rindo muito de nervoso, de medo de cair. Fomos para uma casa não muito longe para cavalgar. Primeira vez que cavalguei sem cela, sobre um belo cavalo chamado Feeling. Sarah disse que eu e Feeling éramos muito parecidos: os dois "bronzeados" e morenos; dei risada. Voltamos pra casa e almoçamos (mais queijo!). Saímos de casa com as bicicletas pra encontrar um amigo dela, pra sair num tour fotográfico por Wissembourg. Terminamos o tour sentados numa pâtisserie caríssima - uma das melhores da França - comendo um doce maravilhoso que me custou os olhos da cara, mas valeu a pena. Fomos então pra uma crêperie, onde encontramos duas amigas - muito francesas - de Sarah e comemos galettes (farinha de trigo sarraceno!) muito boas, que acabaram com qualquer espaço que eu ainda tivesse no meu estômago. Pedalamos de volta pra casa; eu já cansadíssima. E aqui deixo uma descrição sucinta do meu tempo passado na Alsácia, um lugar incrível, nessa casa doida em que não há uma língua oficial. O pai de Sarah é alemão e a mãe de Sarah é francesa, mas ambos se conheceram na Inglaterra e a língua na qual eles só comunicam é inglês. No entanto, Sarah fala francês com a mãe e alemão com o pai. Tudo sobre a Alsácia é meio doido e incrível, me parece.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
um punhado de páginas de um caderno vermelho
Strasbourg, 6h46, quinta-feira, "drop-off and pick up square"
Depois de cair das escadas de um lugar qualquer e me encontrar passando muito frio, ensopada, debaixo da chuva constante do noroeste da Europa; caminhei pelo sudoeste do centro de Bruxelas, um lugar que me fez pensar em escravidão, em colonialismo, em exploração. "I felt so white", Amber me revelou algumas horas depois. Ela ficou nervosa com o "clima" daquela rua, como me disse, e eu dei risada daquele nervosismo dela de quem só anda em ruas tranquilas e extremamente seguras. Passávamos por lojas e feiras de frutas. Ninguém falava francês ou flamengo, falavam línguas que eu completamente desconheço. Me fez entender o que é imigração. Porque os negros belgas são negros puros. Não gosto do conceito "puridade" pelo seu valor pejorativo, herança do nazismo, fascismo e muitas coisas antes disso. Mas o que quero dizer com puro - e uso essa palavra aqui numa inocência muito grande - é que eles me parecem ter o sangue 100% africano, 100% negro. Venho de um território geográfico - o que costumamos chamar de país, mas ainda me falta entender o conceito do 'Brasil País' ou da 'Belíndia" - em que ninguém é imigrante e, também, ao mesmo tempo, todo somos (tirando os 0,5% da população que constitui os indígenas). Os negros brasileiros são uma mistura doida de tudo e mais um pouco - o que não os torna menos negros, não me entenda mal. E entendi um pouco mais da população brasileira, da inserção numa cultura que é uma mistura de todas. Mas ali, naquele país europeu minúsculo, vi homens, mulheres e crianças imigrantes, lutando pra se inserir naqueles idiomas locais, no modo de viver europeu. Naquela região da cidade, quanto tivemos que parar na calçada para aguardar o semáforo de pedestres, saquei a minha câmera para fotografar aquele lugar que me parecia quase que perdido no tempo-espaço; flagrei um homem à nossa esquerda assistindo-me colocar a câmera de volta na bolsa. Ele não foi discreto. E assim que o semáforo ficou verde - por que diabos falamos em português que o "semáforo abre"?! continuo acidentalmente traduzindo -, segurei Amber pelo braço e fiz questão de andar atrás do homem, que não parava de lançar olhares pra trás. Sentia o sangue ferver e subir meu corpo. Quem ele pensava que era pra sequer pensar em roubar a minha câmera?! Odiei aquele homem. Ele quis tomar de mim meu instrumento de arte - algo que já foi meu violão -, só isso. (...) Assim que atravessamos a rua, puxei Amber para o meio daquela confusão de barraquinhas de uma instalação de um parque de diversões, sem saber se aquela era uma sábia decisão ou não. Me enfiei num espaço entre cabos, caixas de papelão e lixo despejado, tentando enxergar o homem. Avistei-o ir embora, ainda olhando pra trás, nos procurando - procurando a minha câmera -, mas desistindo de armar algum tipo de emboscada. Não consegui respirar de alívio; só conseguia ter muito ódio. Tomamos um caminho alternativo e eu só fazia xingar aquele ser humano que quase tomou minha câmera. Talvez só uma hora depois meu sangue tenha esfriado, quando já havia acenado pra Amber partindo em seu trem de volta pra Ronse, enquanto me encontrava ali sozinha na plataforma 9 (10? 11? Nem lembro mais) da Bruxelles-Nord, abaixando minha pressão. (...) Naquela plataforma à minha frente, em que as pessoas se encontravam tão distantes umas das outras, imersas em seus próprios mundos, um grupo parecia mudar a atmosfera, dançando e rindo alto. E fui muito mais calma caminhando até a estação da Eurolines, onde me encontrei cercada por negros e uns poucos brancos europeus - "I felt so white", pensei. Uma briga acontecia ali fora, no meu campo de visão. Amber havia me avisado que aquela era uma parte mais perigosa da cidade. Esperei algumas horas e peguei um ônibus num estado de aflição de tudo aquilo, da escuridão, de uma língua que não falo, mas um pouco acalmada pelas reflexões de Caetano Veloso; quis muito encontrar Sarah logo para dar-lhe um longo abraço e me sentir segura. (...)
Agora me sinto cansada, mas sem fome - embora tenha tido minha última refeição ontem aproximadamente às 16h. Me sinto segura em Strasbourg, nessa praça onde os ônibus vem e vão, sentada num banco um pouco molhado e... aguardando.
Depois de cair das escadas de um lugar qualquer e me encontrar passando muito frio, ensopada, debaixo da chuva constante do noroeste da Europa; caminhei pelo sudoeste do centro de Bruxelas, um lugar que me fez pensar em escravidão, em colonialismo, em exploração. "I felt so white", Amber me revelou algumas horas depois. Ela ficou nervosa com o "clima" daquela rua, como me disse, e eu dei risada daquele nervosismo dela de quem só anda em ruas tranquilas e extremamente seguras. Passávamos por lojas e feiras de frutas. Ninguém falava francês ou flamengo, falavam línguas que eu completamente desconheço. Me fez entender o que é imigração. Porque os negros belgas são negros puros. Não gosto do conceito "puridade" pelo seu valor pejorativo, herança do nazismo, fascismo e muitas coisas antes disso. Mas o que quero dizer com puro - e uso essa palavra aqui numa inocência muito grande - é que eles me parecem ter o sangue 100% africano, 100% negro. Venho de um território geográfico - o que costumamos chamar de país, mas ainda me falta entender o conceito do 'Brasil País' ou da 'Belíndia" - em que ninguém é imigrante e, também, ao mesmo tempo, todo somos (tirando os 0,5% da população que constitui os indígenas). Os negros brasileiros são uma mistura doida de tudo e mais um pouco - o que não os torna menos negros, não me entenda mal. E entendi um pouco mais da população brasileira, da inserção numa cultura que é uma mistura de todas. Mas ali, naquele país europeu minúsculo, vi homens, mulheres e crianças imigrantes, lutando pra se inserir naqueles idiomas locais, no modo de viver europeu. Naquela região da cidade, quanto tivemos que parar na calçada para aguardar o semáforo de pedestres, saquei a minha câmera para fotografar aquele lugar que me parecia quase que perdido no tempo-espaço; flagrei um homem à nossa esquerda assistindo-me colocar a câmera de volta na bolsa. Ele não foi discreto. E assim que o semáforo ficou verde - por que diabos falamos em português que o "semáforo abre"?! continuo acidentalmente traduzindo -, segurei Amber pelo braço e fiz questão de andar atrás do homem, que não parava de lançar olhares pra trás. Sentia o sangue ferver e subir meu corpo. Quem ele pensava que era pra sequer pensar em roubar a minha câmera?! Odiei aquele homem. Ele quis tomar de mim meu instrumento de arte - algo que já foi meu violão -, só isso. (...) Assim que atravessamos a rua, puxei Amber para o meio daquela confusão de barraquinhas de uma instalação de um parque de diversões, sem saber se aquela era uma sábia decisão ou não. Me enfiei num espaço entre cabos, caixas de papelão e lixo despejado, tentando enxergar o homem. Avistei-o ir embora, ainda olhando pra trás, nos procurando - procurando a minha câmera -, mas desistindo de armar algum tipo de emboscada. Não consegui respirar de alívio; só conseguia ter muito ódio. Tomamos um caminho alternativo e eu só fazia xingar aquele ser humano que quase tomou minha câmera. Talvez só uma hora depois meu sangue tenha esfriado, quando já havia acenado pra Amber partindo em seu trem de volta pra Ronse, enquanto me encontrava ali sozinha na plataforma 9 (10? 11? Nem lembro mais) da Bruxelles-Nord, abaixando minha pressão. (...) Naquela plataforma à minha frente, em que as pessoas se encontravam tão distantes umas das outras, imersas em seus próprios mundos, um grupo parecia mudar a atmosfera, dançando e rindo alto. E fui muito mais calma caminhando até a estação da Eurolines, onde me encontrei cercada por negros e uns poucos brancos europeus - "I felt so white", pensei. Uma briga acontecia ali fora, no meu campo de visão. Amber havia me avisado que aquela era uma parte mais perigosa da cidade. Esperei algumas horas e peguei um ônibus num estado de aflição de tudo aquilo, da escuridão, de uma língua que não falo, mas um pouco acalmada pelas reflexões de Caetano Veloso; quis muito encontrar Sarah logo para dar-lhe um longo abraço e me sentir segura. (...)
Agora me sinto cansada, mas sem fome - embora tenha tido minha última refeição ontem aproximadamente às 16h. Me sinto segura em Strasbourg, nessa praça onde os ônibus vem e vão, sentada num banco um pouco molhado e... aguardando.
Sem mais,
Sofia
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
duas de três
Ganas de viajar
Quando viajamos, geralmente saímos de casa e para lá retornamos. Me parece estranho ter saído de casa para viajar e não estar retornando para lá ao final da viagem. Não percebi ainda que a minha viagem acaba logo, logo em Mostar. Daqui a oito dias vou estar retornando para casa depois de uma viagem, mas não pra mesma casa de onde saí logo há pouco. Não estou tão ansiosa para voltar ao colégio - embora diga estar. Parece muito estranho, agora; Mostar me parece um lugar muito longínquo e remoto, queimando sob as chamas do sol e a água do rio de cor esmeralda evaporada debaixo de pontes. Ainda penso em português. E sinto uma saudade muito estranha de meus amigos; uma vontade muito grande de voltar ao Brasil que me faz olvidar mi ganas de viajar y conocer el mundo. Logo, passa. Logo, estou por lá, feliz.
Verdades
O quão engraçado é que o livro de Caetano Veloso tenha virado a minha bíblia? Carrego-o para todo o lado, por todo o mundo. Na primeira página, abaixo do nome do primeiro dono daquele livro - Bruno Magalhães, 1998 -, assinei meu nome em tinta preta - Sofia Pontes Moreira, 2013 - e, no canto superior direito, passei a listar o nome de todas as cidades no qual ele foi - por mim - lido; e me dá gosto que a minha história se relacione com a de um livro - não a história escrita nele por milhares de palavras, mas a do objeto, do livro, daquele aglomerado e conjunto de páginas com letras impressas -. E não qualquer livro: minha bíblia, meu corão, minha torá, Verdade Tropical. Não toda a verdade, nem mesmo uma parte dela. Mas é a verdade de Caetano. E, por ora, a minha. Mas sempre naquela tropicalidade.
Quando viajamos, geralmente saímos de casa e para lá retornamos. Me parece estranho ter saído de casa para viajar e não estar retornando para lá ao final da viagem. Não percebi ainda que a minha viagem acaba logo, logo em Mostar. Daqui a oito dias vou estar retornando para casa depois de uma viagem, mas não pra mesma casa de onde saí logo há pouco. Não estou tão ansiosa para voltar ao colégio - embora diga estar. Parece muito estranho, agora; Mostar me parece um lugar muito longínquo e remoto, queimando sob as chamas do sol e a água do rio de cor esmeralda evaporada debaixo de pontes. Ainda penso em português. E sinto uma saudade muito estranha de meus amigos; uma vontade muito grande de voltar ao Brasil que me faz olvidar mi ganas de viajar y conocer el mundo. Logo, passa. Logo, estou por lá, feliz.
Verdades
O quão engraçado é que o livro de Caetano Veloso tenha virado a minha bíblia? Carrego-o para todo o lado, por todo o mundo. Na primeira página, abaixo do nome do primeiro dono daquele livro - Bruno Magalhães, 1998 -, assinei meu nome em tinta preta - Sofia Pontes Moreira, 2013 - e, no canto superior direito, passei a listar o nome de todas as cidades no qual ele foi - por mim - lido; e me dá gosto que a minha história se relacione com a de um livro - não a história escrita nele por milhares de palavras, mas a do objeto, do livro, daquele aglomerado e conjunto de páginas com letras impressas -. E não qualquer livro: minha bíblia, meu corão, minha torá, Verdade Tropical. Não toda a verdade, nem mesmo uma parte dela. Mas é a verdade de Caetano. E, por ora, a minha. Mas sempre naquela tropicalidade.
sábado, 3 de agosto de 2013
escolha - nem casa, nem dom
Na minha primeira noite na Bélgica, tive milhões de sonhos doidos. Sonhei com meu novo quarto, dessa vez em Susac (algo que não sei ainda, mas que meu subconsciente parece me contar); sonhei com um vírus; com quatro amigas de infância; com uma varanda e uma garagem. Dormi por horas a fio, talvez por jet lag, talvez por saudade de casa, talvez porque o calor me embalou nesse campo de sonhos do qual eu não queria sair. Talvez porque não me parecia real estar num lugar tão incomum, que não fosse casa, nem dom¹. Mas quando finalmente levantei, sentia-me feliz - como mais poderia estar?!
No meu primeiro dia na Bélgica, fui a um festival de música. Encantei-me com os prédios grudados de um vilarejo feito de tijolos, exatamente como eu os imaginava - Europa. Comi strogonoff belga, ouvi uma banda de seis irmãs, viajei numa mini van com uma família doidinha e muito divertida. Mas o que mais me impressionou nesse meu primeiro dia na Bélgica foi certa escolha: a escolha de língua cantada. Os belgas - que não falam belga - entre um flemish, um francês e um alemão optam por cantar em inglês. Não que bandas brasileiras não façam o mesmo, mas de todos os grupos que eu ouvi hoje, todos cantaram em inglês. Não porque é a única língua que eles têm em comum - nas escolas, teoricamente, todos têm que aprender ambos flemish e francês -, mas porque o inglês lhes soa muito melhor. Soa melhor pra compor, pra cantar, pra encaixar na melodia da música. Deu saudade do português. Percebi mais outra vez a beleza que é a língua portuguesa. Letras em inglês me soam tão banais e sem graça... Agora, letras em português - não todas, que fique claro - me parecem ter aquela magia, aquele chega de saudade, aquele encanto único e que parece tão supremo - embora não goste do uso dessa palavra. Caetano já dizia que saudade é essa palavra que é um lugar-comum na lírica luso-brasileira e um emblema da língua portuguesa, pois, além de ser um acidente etimológico inexplicado, cobre um campo semântico revelador de algo peculiar em nosso modo de ser.
Deixo-lhes uma Memória que talvez hoje me ajude a embalar no sono:
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão
No meu primeiro dia na Bélgica, fui a um festival de música. Encantei-me com os prédios grudados de um vilarejo feito de tijolos, exatamente como eu os imaginava - Europa. Comi strogonoff belga, ouvi uma banda de seis irmãs, viajei numa mini van com uma família doidinha e muito divertida. Mas o que mais me impressionou nesse meu primeiro dia na Bélgica foi certa escolha: a escolha de língua cantada. Os belgas - que não falam belga - entre um flemish, um francês e um alemão optam por cantar em inglês. Não que bandas brasileiras não façam o mesmo, mas de todos os grupos que eu ouvi hoje, todos cantaram em inglês. Não porque é a única língua que eles têm em comum - nas escolas, teoricamente, todos têm que aprender ambos flemish e francês -, mas porque o inglês lhes soa muito melhor. Soa melhor pra compor, pra cantar, pra encaixar na melodia da música. Deu saudade do português. Percebi mais outra vez a beleza que é a língua portuguesa. Letras em inglês me soam tão banais e sem graça... Agora, letras em português - não todas, que fique claro - me parecem ter aquela magia, aquele chega de saudade, aquele encanto único e que parece tão supremo - embora não goste do uso dessa palavra. Caetano já dizia que saudade é essa palavra que é um lugar-comum na lírica luso-brasileira e um emblema da língua portuguesa, pois, além de ser um acidente etimológico inexplicado, cobre um campo semântico revelador de algo peculiar em nosso modo de ser.
Deixo-lhes uma Memória que talvez hoje me ajude a embalar no sono:
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão
Carlos Drummond de Andrade
¹Dom = 'Casa ' em bósnio/sérvio/croata
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
você praça, eu acho graça
Tenho tendência a esquecer que eu não sou uma pessoa emotiva. Tenho tendência a odiar ser tão fria. Enquanto andava ontem a caminho da Praça do Por do Sol, ouvindo Caetano Veloso, lembrei que não sou dramática, que, na verdade, não sofro com essa coisa de adeus. Às vezes, me forço a sofrer por despedidas, por aqueles momentos que deveriam ser nostálgicos, que eu deveria guardar na minha lembrança e recordar quando o avião sobe ao céu. Mas não... Talvez, também não sofro porque sei que em um ano estarei de volta. E mais tarde, quando cheguei à Praça e sentei com um grupo de faces tão familiares - e uma que não via há muitos anos - e amadas, assistimos ao sol se por ali na nossa direita, discutindo se ele estava descendo pra direita ou pra esquerda. O ciclo continua quando a noite aparece lá em cima e logo vai surgindo no horizonte. Mas nostalgia? Não, acho que não. Não preciso sofrer, me torturar ou sentir como uma coisa negativa essas partidas, essas continuidades de ciclos. Sou vento, sou um mini mistério da cidade dos semáforos e das placas com a distância em km para o marco zero, sou nada.
Quis um dia pra mim mesma depois do meu intenso começo de semana: um dia pra dormir, estar comigo mesma, pensar sobre tudo. Não arrumo minha mala com antecedência porque não tenho problema em deixar coisas pra trás - tudo que é material é substituível. Amanhã, parto.
Quis um dia pra mim mesma depois do meu intenso começo de semana: um dia pra dormir, estar comigo mesma, pensar sobre tudo. Não arrumo minha mala com antecedência porque não tenho problema em deixar coisas pra trás - tudo que é material é substituível. Amanhã, parto.
segunda-feira, 29 de julho de 2013
pela lei natural dos encontros
Ela pediu que eu contasse como estou me sentindo. "Deve ser estranho se adaptar a um lugar, voltar pra sua "origem" e ter que sair novamente" e ela ainda completou "deve ser no mínimo confuso!!" Talvez aquilo que ela estivesse falando fizesse sentido. Num momento breve, meus dedos pousaram sobre o teclado, dando um intervalo no movimento frenético que faz surgir palavras na tela do computador. Segurei aquele pensamento. Minha origem. Meus pais, minha irmã, minha família. Delícia de férias com eles, por mais que não tenhamos passado tanto tempo juntos.
Confuso... Talvez. Quase como se o tempo aqui fosse tão insignificante... Rever pessoas por um espaço tão curto de tempo. Conhecer pessoas numa velocidade tão impressionante. E partir - mais uma vez - é assim: confuso. Sair. Passar pelos biombos equatorianos e mostrar meu passaporte, minha documentação de menor de idade - pela última vez - e sentar, na espera que aquela fila para entrar no avião diminua, com um livro no colo e aquela sensação incerta e confusa de dúvida sobre ter saído pelo portão que dizia "exit" ou pelo que dizia "entry" - se é que eles são diferentes. Adaptação. Que diabos! Dá trabalho, é cansativo, mas nada muda no quesito felicidade quando estou em SP. Eu tenho muito na vida; de nada posso reclamar. E o cômodo já invadiu minha vida novamente: Mostar já não me é um mistério e, sim, um espaço geográfico no qual quero estar, sentada na beira do rio.
Confuso... Talvez. Quase como se o tempo aqui fosse tão insignificante... Rever pessoas por um espaço tão curto de tempo. Conhecer pessoas numa velocidade tão impressionante. E partir - mais uma vez - é assim: confuso. Sair. Passar pelos biombos equatorianos e mostrar meu passaporte, minha documentação de menor de idade - pela última vez - e sentar, na espera que aquela fila para entrar no avião diminua, com um livro no colo e aquela sensação incerta e confusa de dúvida sobre ter saído pelo portão que dizia "exit" ou pelo que dizia "entry" - se é que eles são diferentes. Adaptação. Que diabos! Dá trabalho, é cansativo, mas nada muda no quesito felicidade quando estou em SP. Eu tenho muito na vida; de nada posso reclamar. E o cômodo já invadiu minha vida novamente: Mostar já não me é um mistério e, sim, um espaço geográfico no qual quero estar, sentada na beira do rio.
sábado, 27 de julho de 2013
me dê a mão pra ver o sol
Sentei ontem à noite pra reler meu blog. Pensei no que havíamos conversado no bota-dentro em Brasília, sobre relembrar o ano e refletir sobre ele. O dia era muito conveniente, considerando o que ele significou e ainda significa pra mim... Então sentei e comecei desde o começo, da primeira postagem. O início me pareceu muito estranho.... Minhas frases eram tão objetivas, precisas, sem emoção. Não sei se estava assustada, se não sabia o que estava fazendo. Me surpreendi ao ler certas coisas das quais eu não me lembro e ao ler coisas que eu achei que tinha esquecido, mas consegui resgatar na minha memória.
Minha forma de escrever virou muito mais subjetiva (tão subjetiva que não consigo recordar o que quis dizer quando escrevi certas coisas), muito mais emotiva e talvez muito mais envolvente. O post que marcou essa mudança foi mantendo-se onde a luz está, o post em que reconheci ser descritiva demais pro meu gosto.
Meu inglês se incorporou ao meu português. Eles fizeram uma aliança bonita. Porque meu português se tornou mais sofisticado (às vezes, menos correto gramaticalmente) e um pouco traduzido do inglês. Ao mesmo tempo, meu olhar se tornou outro. A mudança da minha forma de fotografar é muito clara: minha opção pelas sombras, pelas cores avermelhadas e pelos retratos se tornaram muito claras. Minha forma de ver o mundo mudou, como efeito ou consequência.
Sou muito crítica comigo mesma. Raramente consigo gostar de algo que produzo. E meu blog não é uma exceção: não foi fácil relê-lo e desprezá-lo e, em alguns momentos, querer parar de nele escrever. Não foi fácil ver que tem muita coisa do meu ano que eu não consegui aprisionar nas palavras que nesse blog deixei - e que não vou conseguir aprisionar em minha memória por muito mais tempo.
Está frio. Eu não gosto de sair de casa no frio de São Paulo: só quero ficar em casa, debaixo das cobertas, madrugando, assistindo filmes e lendo. Ainda mais agora, que me sinto mais sozinha do que paulistano, depois que a alegria do UWC Brasil me deixou. E começo a perceber que me vou embora do Brasil daqui a 6 dias. Tão pouco! Passei tanto tempo aqui no Brasil - quase dois meses. Não fiz nada do que queria. Não fiz nada para o IB, o que tinha prometido pra mim mesma que faria, pra aliviar o estresse do meu próximo semestre. Não consegui nem mesmo passar um tempo decente com o Lucas, meu quase irmão, que foi me buscar no aeroporto e praticamente não o vi depois daquele dia. E ele mora no mesmo prédio que eu....
E são só mais alguns dias que eu tenho pra ver pela última vez - em algum tempo - vários de meus amigos mais queridos. E sei que alguns dos que eu ainda queria ver pelo menos mais uma vez nessas férias, eu não verei. Eu nunca me senti tão estranha sobre ir embora. Não que dessa vez seja mais difícil me despedir. Não que eu esteja mais triste em ir embora... É inexplicável, simplesmente inexplicável. E tem outras coisas inexplicáveis na vida, como aquilo que me trouxe de volta ao passado no dia de ontem, 25 de julho.
Minha forma de escrever virou muito mais subjetiva (tão subjetiva que não consigo recordar o que quis dizer quando escrevi certas coisas), muito mais emotiva e talvez muito mais envolvente. O post que marcou essa mudança foi mantendo-se onde a luz está, o post em que reconheci ser descritiva demais pro meu gosto.
Meu inglês se incorporou ao meu português. Eles fizeram uma aliança bonita. Porque meu português se tornou mais sofisticado (às vezes, menos correto gramaticalmente) e um pouco traduzido do inglês. Ao mesmo tempo, meu olhar se tornou outro. A mudança da minha forma de fotografar é muito clara: minha opção pelas sombras, pelas cores avermelhadas e pelos retratos se tornaram muito claras. Minha forma de ver o mundo mudou, como efeito ou consequência.
Sou muito crítica comigo mesma. Raramente consigo gostar de algo que produzo. E meu blog não é uma exceção: não foi fácil relê-lo e desprezá-lo e, em alguns momentos, querer parar de nele escrever. Não foi fácil ver que tem muita coisa do meu ano que eu não consegui aprisionar nas palavras que nesse blog deixei - e que não vou conseguir aprisionar em minha memória por muito mais tempo.
Está frio. Eu não gosto de sair de casa no frio de São Paulo: só quero ficar em casa, debaixo das cobertas, madrugando, assistindo filmes e lendo. Ainda mais agora, que me sinto mais sozinha do que paulistano, depois que a alegria do UWC Brasil me deixou. E começo a perceber que me vou embora do Brasil daqui a 6 dias. Tão pouco! Passei tanto tempo aqui no Brasil - quase dois meses. Não fiz nada do que queria. Não fiz nada para o IB, o que tinha prometido pra mim mesma que faria, pra aliviar o estresse do meu próximo semestre. Não consegui nem mesmo passar um tempo decente com o Lucas, meu quase irmão, que foi me buscar no aeroporto e praticamente não o vi depois daquele dia. E ele mora no mesmo prédio que eu....
E são só mais alguns dias que eu tenho pra ver pela última vez - em algum tempo - vários de meus amigos mais queridos. E sei que alguns dos que eu ainda queria ver pelo menos mais uma vez nessas férias, eu não verei. Eu nunca me senti tão estranha sobre ir embora. Não que dessa vez seja mais difícil me despedir. Não que eu esteja mais triste em ir embora... É inexplicável, simplesmente inexplicável. E tem outras coisas inexplicáveis na vida, como aquilo que me trouxe de volta ao passado no dia de ontem, 25 de julho.
terça-feira, 23 de julho de 2013
domingo, 21 de julho de 2013
abalo, intensidade e cumplicidade
Voltei pra casa ontem com meu coração amarrado. Não era aquela dor que vem normalmente associada a despedidas; era uma dor completamente nova que pesava dentro de mim sem que eu soubesse explicar, enquanto me esforçava pra não fechar os olhos e dormir ao som daquela música no rádio do carro.
Voltei pra casa e mesmo com todo aquele cansaço me consumindo, precisei sentar e escrever, sabendo que se não o fizesse, não teria o mesmo efeito, o mesma transpassamento daquilo que me tomava e daquilo que eu botasse em palavras cuidadosamente. Salvei um documento de Word tendo a certeza de que o encontrarei daqui um ano e provavelmente chorarei quando o ler. Declarei toda aquela sensação de um bota-fora intenso, de medos, de esperanças, de decepções. Ao mesmo tempo, conversava com uma amiga israelense que estava à caminho de Jerusalém. Fui dormir ainda assim; abalada.
Me apaixonei pelos meus primeiros anos em poucas horas... No começo, não senti as vibrações da geração deles, admito. Não só eu, como outros. Mas não demorou muito tempo pra que eles se soltassem, pra que eles me impressionassem com seus potenciais, seus amores, seus pensamentos maduros. Sorria e ria. Sentei na beira da piscina com meu primeiro ano - aquele em todos os sentidos, brasileiro e mostariano - e joguei tanta coisa naquele espaço entre eu e ele. Cumplicidade, ele disse. E não mentiu. Senti a amizade latina (e esse amor que só nós parecemos conseguir viver) que eu não tive por um ano todo e quase chorei ao perceber essa ausência que eu sempre mencionei, mas nunca percebi de fato. A população de latinos em Mostar está dobrando (ou aumentando em 170%, como diria Fábio).
As dúvidas que eles tinham... dúvidas que faziam tanto sentido um ano atrás e que agora parecem tão... familiares - em todos os sentidos. Sentei no CCSP pela última vez nessa férias; um lugar que pra mim representou o começo do meu interesse em política e representa tanto encontros de UWC... Uma síntese em forma de espaço. O tour por São Paulo foi cansativo, talvez não tão produtivo quanto no ano passado, mas belo com a multidão de São Paulo, com os brasileiros que não são paulistanos se assustando com o ritmo das pessoas no metrô... Fui guia turística na minha cidade de origem. Vi meus primeiros anos pagarem o mesmo mico que eu paguei no ano passado (não o declararei aqui para não ter spoilers para possíveis futuros alunos).
Foi ao longo daquele dia que algo muito UWC foi acontecendo: abraços. Abraços são algo tão importante no UWC. No momento em que você começa a andar por aí abraçada a alguém que você acabou de conhecer, você começa a entender melhor o UWC, talvez. Porque a intimidade do UWC Brasil se dá de uma forma tão rápida e intensa, com abraços longos, beijos no topo da cabeça, sorrisos tão genuínos... No final do dia, nos entregamos a contar e revelar histórias de nossas vidas no UWC, enquanto os primeiros anos as ouviam com tanta atenção e curiosidade - e certa admiração. A tradicional festa na casa do Ricardo foi deliciosa.
A Casa da Amizade foi talvez centenas de vezes melhor do que no ano passado. Talvez porque o grupo era outro, ou talvez porque meus lábios involuntariamente se abriam num sorriso de orgulho, de felicidade, de amor pelo UWC Brasil, pela família que somos, pelo cuidado daqueles primeiros anos que se jogaram com muito amor naquela experiência de uma manhã. Borboletas de mosaico. Mosaico tão bonito quanto o mosaico da própria casa do Gaudi de Paraisopolis - sempre encantadora.
Trouxe todos pra casa. Meus primeiros anos, Kelly (RCN UWC 2011-2013) e Lud (UWC SEA 2011-2013) vieram pra casa numa verdadeira viagem de transporte público, na qual Wesley não conseguia falar uma palavra de tanta fome. Preparei um macarrão enquanto assistíamos a vídeos dos colégios. Fui declarada mãe UWC por Fábio que, no dia anterior, havia dito que eu era muito mais irmã do que mãe UWC. Sim, eu sempre quis ter primeiros anos. Sempre quis abraçá-los pra dentro da família, da mesma forma que fizeram comigo.
A confraternização foi fantástica. Mas tão diferente do ano passado. Rever meus selecionadores sempre é estranho e lindo ao mesmo tempo. Abracei-os e contei dos problemas do colégio. Chorei de rir com as fotos dos meus primeiros anos sendo expostas na apresentação e com suas reações ao vê-las. Discursos belos, envergonhados e profundos de uma forma tão superficial... Insisti na rodinha que fizemos na grama - num verdadeiro campo minado de cocôs -, que foi um fechamento do bota-fora e desejos de boa sorte pra todos, meus co-anos e primeiros anos.
Foi uma bota-fora muito, muito diferente do que vivi no ano passado. Não por ser melhor e pior: não é possível classificar. Mas porque a minha posição foi totalmente diferente. Porque da última vez eu era a inexperiente, a que olhava pros meus segundos e terceiros anos com uma brutal curiosidade... Dessa vez fui eu a admirada, a escutada, a interrogada. Foi diferente, lindo do mesmo jeito que foi no ano anterior. Estar na presença de meus segundos também é sempre mágico, sempre impressionante. Um bota-fora que me trouxe emoções fortes de vontade, de orgulho, de esperança de uma experiência UWC maravilhosa pra cada um desse lindos primeiros anos que o comitê brasileiro teve a perspicácia de selecionar.
Voltei pra casa e mesmo com todo aquele cansaço me consumindo, precisei sentar e escrever, sabendo que se não o fizesse, não teria o mesmo efeito, o mesma transpassamento daquilo que me tomava e daquilo que eu botasse em palavras cuidadosamente. Salvei um documento de Word tendo a certeza de que o encontrarei daqui um ano e provavelmente chorarei quando o ler. Declarei toda aquela sensação de um bota-fora intenso, de medos, de esperanças, de decepções. Ao mesmo tempo, conversava com uma amiga israelense que estava à caminho de Jerusalém. Fui dormir ainda assim; abalada.
Me apaixonei pelos meus primeiros anos em poucas horas... No começo, não senti as vibrações da geração deles, admito. Não só eu, como outros. Mas não demorou muito tempo pra que eles se soltassem, pra que eles me impressionassem com seus potenciais, seus amores, seus pensamentos maduros. Sorria e ria. Sentei na beira da piscina com meu primeiro ano - aquele em todos os sentidos, brasileiro e mostariano - e joguei tanta coisa naquele espaço entre eu e ele. Cumplicidade, ele disse. E não mentiu. Senti a amizade latina (e esse amor que só nós parecemos conseguir viver) que eu não tive por um ano todo e quase chorei ao perceber essa ausência que eu sempre mencionei, mas nunca percebi de fato. A população de latinos em Mostar está dobrando (ou aumentando em 170%, como diria Fábio).
As dúvidas que eles tinham... dúvidas que faziam tanto sentido um ano atrás e que agora parecem tão... familiares - em todos os sentidos. Sentei no CCSP pela última vez nessa férias; um lugar que pra mim representou o começo do meu interesse em política e representa tanto encontros de UWC... Uma síntese em forma de espaço. O tour por São Paulo foi cansativo, talvez não tão produtivo quanto no ano passado, mas belo com a multidão de São Paulo, com os brasileiros que não são paulistanos se assustando com o ritmo das pessoas no metrô... Fui guia turística na minha cidade de origem. Vi meus primeiros anos pagarem o mesmo mico que eu paguei no ano passado (não o declararei aqui para não ter spoilers para possíveis futuros alunos).
Foi ao longo daquele dia que algo muito UWC foi acontecendo: abraços. Abraços são algo tão importante no UWC. No momento em que você começa a andar por aí abraçada a alguém que você acabou de conhecer, você começa a entender melhor o UWC, talvez. Porque a intimidade do UWC Brasil se dá de uma forma tão rápida e intensa, com abraços longos, beijos no topo da cabeça, sorrisos tão genuínos... No final do dia, nos entregamos a contar e revelar histórias de nossas vidas no UWC, enquanto os primeiros anos as ouviam com tanta atenção e curiosidade - e certa admiração. A tradicional festa na casa do Ricardo foi deliciosa.
A Casa da Amizade foi talvez centenas de vezes melhor do que no ano passado. Talvez porque o grupo era outro, ou talvez porque meus lábios involuntariamente se abriam num sorriso de orgulho, de felicidade, de amor pelo UWC Brasil, pela família que somos, pelo cuidado daqueles primeiros anos que se jogaram com muito amor naquela experiência de uma manhã. Borboletas de mosaico. Mosaico tão bonito quanto o mosaico da própria casa do Gaudi de Paraisopolis - sempre encantadora.
Trouxe todos pra casa. Meus primeiros anos, Kelly (RCN UWC 2011-2013) e Lud (UWC SEA 2011-2013) vieram pra casa numa verdadeira viagem de transporte público, na qual Wesley não conseguia falar uma palavra de tanta fome. Preparei um macarrão enquanto assistíamos a vídeos dos colégios. Fui declarada mãe UWC por Fábio que, no dia anterior, havia dito que eu era muito mais irmã do que mãe UWC. Sim, eu sempre quis ter primeiros anos. Sempre quis abraçá-los pra dentro da família, da mesma forma que fizeram comigo.
A confraternização foi fantástica. Mas tão diferente do ano passado. Rever meus selecionadores sempre é estranho e lindo ao mesmo tempo. Abracei-os e contei dos problemas do colégio. Chorei de rir com as fotos dos meus primeiros anos sendo expostas na apresentação e com suas reações ao vê-las. Discursos belos, envergonhados e profundos de uma forma tão superficial... Insisti na rodinha que fizemos na grama - num verdadeiro campo minado de cocôs -, que foi um fechamento do bota-fora e desejos de boa sorte pra todos, meus co-anos e primeiros anos.
Foi uma bota-fora muito, muito diferente do que vivi no ano passado. Não por ser melhor e pior: não é possível classificar. Mas porque a minha posição foi totalmente diferente. Porque da última vez eu era a inexperiente, a que olhava pros meus segundos e terceiros anos com uma brutal curiosidade... Dessa vez fui eu a admirada, a escutada, a interrogada. Foi diferente, lindo do mesmo jeito que foi no ano anterior. Estar na presença de meus segundos também é sempre mágico, sempre impressionante. Um bota-fora que me trouxe emoções fortes de vontade, de orgulho, de esperança de uma experiência UWC maravilhosa pra cada um desse lindos primeiros anos que o comitê brasileiro teve a perspicácia de selecionar.
Fabinho (UWC SEA 2013-2015)
Vitoria (UWC Costa Rica 2013-2015)
Isadora (UWC Maastricht 2012-2014)
Lucas (UWC Mostar 2013-2015)
Fotos tiradas no trabalho feito na Casa da Amizade
sexta-feira, 19 de julho de 2013
família UWC Brasil - o reencontro
Dá-se início ao bota-fora 2013 com uma ida inútil ao centro de São Paulo e, em seguida, uma viagem até Cotia. Mas tudo vale; até mesmo acordar às 6h20 pra buscar seus primeiros anos brasilienses e ficar horas dentro do metrô na hora do rush. Minha casa virou uma festa, com três mulheres doidas pra se somarem à minha nostalgia UWC.
Kelly (Red Cross Nordic UWC 2011-2013)
Ricardo (UWC Atlantic 2011-2013)
Silvia (UWC USA 2011-2013)
Raísa (UWC Costa Rica 2011-2013)
João (UWC Adriatic 2010-2012)
Silvia e Raísa
Mariana (UWC Atlantic 2011-2013)
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