quarta-feira, 24 de outubro de 2012

preparativos, trem e recepção

Tudo começou com duas horas de antecedência para acordar. Tirar as coisas do varal: check. Colocar roupas de inverno na mala: check. Uma aula insuportável de matemática e um abraço longo em uma certa holandesa, sabendo que só a veria dali a uma semana. Almoço ao lado de uma turca muito querida que parece que passo mais tempo longe do que perto, de tão grande que é a saudade quando acabamos nos desencontrando por estarmos em aulas completamente diferentes e projetos opostos, mas que é a minha metade aqui (principalmente pelo cabelo negro cacheado).
Amigos indo pra Vienna. Amigos indo pra Budapeste. Amigos indo pra Zagreb. E “locais” indo pras suas casas pra aproveitar o feriado com a família e amigos antigos. Depois de uma semana me perguntando se deveria aceitar a proposta de Adis para ir pra casa dele, pensei “por que não?”. Será incrível experimentar um feriado muçulmano!
Achava que o trem sairia às 18h. E depois de ficar um bom tempo nos degraus da escada na frente de Musala conversando Toam, achei que Adis havia desistido de me levar pra casa. O jantar: batatas fritas e salada. Amigos felizes por acharem que eu acabaria ficando – já que abandonada. Mas um taxi para de frente da residência e Dino e Adis pulam pra fora com mochilas e malas. O trem só parte às 18h40.
Primeira viagem de trem: sem lugar pra sentar. Sentei-me em cima da mala do Haris e fiquei horas ouvindo Almedin tirando sarro da minha cara. Dino dormiu ouvindo música e Adis cochilou no chão do trem. Haris nos deixou um pouco antes da nossa parada e pude sentar na frente de Almedin e apostar uma palacinka que eu não dormiria durante as 6h de viagem.
Em Sarajevo, fizemos conexão. Saltamos do trem e o que tínhamos que pegar estava logo ali, na nossa frente. Subimos e encontramos um trem bastante lotado. Eu e Adis conseguimos lugar numa cabine com outros dois homens. Um deles ficou absurdamente feliz por eu ser brasileira e não parava de me falar coisas – as quais Adis tinha que traduzir. Quis calar a boca do senhor, com todo o respeito. Liguei meu computador, coloquei fones de ouvido e assisti a Central do Brasil com Adis vendo as imagens passando na tela do meu computador e provavelmente não entendendo nada além de choros de Josué.
Finalmente chegamos a Zavidovici. O pai de Dino nos buscou na estação de carro. O engraçado é que quando pulei do trem, senti como se estivesse em tempos de guerra. O trem velho, assim como nos filmes, ruindo e um senhor soprando um apito para que todos descessem do trem. Atravessando trilhos na terra e o escuro da meia noite.
Fui parar na porta de uma casa deliciosamente pequena. Os muçulmanos tem uma tradição de não entrar de sapatos na casa. Delícia andar de pantufas por aí, comer muito e ser oferecida mais e mais comida. Adis mora com a avó e com a mãe, que não falam nada de inglês, mas são uns amores. Disseram-me que nevará no sábado.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

anniversary #2

Dois meses em Mostar significa acordar de manhã cedo sabendo que é dia de tomar sorvete e ir na nossa praia. Achei que Bo só voltaria da caminhada no dia seguinte e isso me entristeceu um pouco. Por isso, encontrar ela de toalha no corredor do segundo andar foi a maior alegria do dia.
Às 20h, fui ao quarto de Ali busca-la, depois de ter indo com Toam no shopping comprar uma faca decente pra cozinhar e um fervedor de água elétrico. Paramos na sorveteria Musala e depois caminhamos para a nossa praia, enquanto a ouvia contando sobre os dias maravilhosos que ela teve caminhando com um grupo incrível de pessoas e tendo muita diversão. Sentamos em frente ao rio, entre as duas pontes, como fizemos no primeiro dia em Mostar.
Contamos sobre os pontos altos das nossas Project Weeks. Incrível como a semana foi longa: parece que não via Bo há um mês, principalmente porque tínhamos tanta coisa pra contar uma pra outra.
Ela tinha que estudar pra uma prova do dia seguinte e eu tinha um Skype marcado (com uma Flávia querida), por isso estávamos com o tempo contado. Mas não vimos o tempo passar. Ficamos lá, debaixo das poucas – mas muitas pro padrão paulista – estrelas de Mostar, conversando sobre nossas mudanças pessoais durante esses dois meses. Conversamos sobre o futuro, sobre o presente, sobre o passado. Conversar com Bo é sempre sinônimo de paz, de calmaria, de risadas e sinceridades. Conversamos sobre a relação dela com Ali, sobre como viver o presente é importante (ela tem um grande adesivo “Carpe Diem” na janela do quarto) e muitas pessoas daqui não se dão ao trabalho de se envolver em relações por saberem que acabarão.
Ah, Bo é uma das pessoas mais ativas da nossa geração. Ela está sempre querendo criar algum projeto. O que eu gosto nela é que ela não só reclama e fala, mas ela realmente vai atrás e faz. Disse pra ela que sinto que Theatre consome todo o meu tempo e energia, senão estaria muito mais envolvida na escola. O que é totalmente verdade: até agora não consegui participar apropriadamente de nenhuma sessão da MUN (Modelo das Nações Unidas). Ao mesmo tempo, não me arrependo. E disse pra Bo que ajudarei ela com o que precisar. Temos planos pra melhorar nossas condições, pra melhorar a integração das moradoras (e dois moradores) do segundo andar de Musala e pra organizar melhor as coisas. Pensamos alto às vezes, mas gosto do otimismo das nossas palavras ditas.
Corri para Aleksa, meia hora atrasada, e tive 15 minutos de puro alívio por finalmente, depois de dois meses (literalmente), conseguir ouvir a voz querida da Flávia.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

adeus, verão prolongado

Sem mais delongas: depois desse verão estendido, estamos finalmente dizendo adeus aos dias ensolarados e secos; ao sol que bate no quarto #4 no segundo andar e que não me deixei dormir à tarde; ao suor resultante da caminhada até Susac; à vontade incontrolável de entrar no Neretva depois da aula e de tomar um sorvete em Old Town.
Hoje, quando minha rommie, Aisa, me contou que ia levar todas as roupas de verão pra Travnik, a cidade natal dela, durante o feriado da semana que vem, e trazer todas as roupas de inverno, eu me toquei: o inferno começa agora. Quem me conhece sabe o quanto eu detesto frio. O quanto eu odeio me mexer quando está frio e a minha vontade zero de sair debaixo da coberta de manhã. Sim, temos aquecedores aqui nos quartos e, graças a sei lá quem, o meu quarto é o quarto mais quente de toda Musala. Mas mesmo assim, venta muito no caminho pra escola e já sinto o friozinho vindo.
Não sou friorenta. Os europeus já começaram a usar casacos, mas eu continuo com as minhas camisetas de manga curta e meia-calças com shorts. Vai entender... Segundo o Bebo (Egito), egípcios e brasileiros tem sangue quente e por isso não sentem frio. O que não tem sentido nenhum, mas ok.
O verão em Mostar durou muito tempo e os locais dizem que isso não é normal. Estou tentando me preparar psicologicamente pro frio que me espera nesse outono e, depois, o frio do inverno quando eu voltar do meu verão de sol e praia no Brasil durante o Winter Break. Mas, acima de tudo, hoje estou me preparando pro frio de Sarajevo que vou ter que enfrentar amanhã, quarta e quinta.
A região da BiH onde fica Mostar é a única com esse clima louco. O centro do país e gelado e o norte... nem se fala.

Mostar parece estar vazia. Fui pra Susac com Andra hoje e encontrei somente 5 pessoas numa residência onde mais de 70 pessoas moram. Até Musala parece uma casa fantasma. Isso porque a grande maioria das pessoas já partiu para seus Project Weeks. Tirando o meu grupo e os três grupos que tem seus projetos acontecendo aqui em Mostar.
E esse vazio significa mais tempo com Toam. Estou forçando-a a estudar, já que os SATs estão se aproximando, assim como os exams de Biology e Math que são a razão para ela estar aqui. Ontem fomos assistir um filme no shopping: Taken 2. Foi extremamente divertido. Mas depois passamos horas em Jump Jump: ela estudando, eu skypando com a família reunida comemorando o aniversário do meu pai e com a querida Mari que está nos confins do norte dos EUA. Toam quis me matar depois de três horas ouvindo eu falando português. Disse que causei uma dor de cabeça péssima nela.

Hoje Toam veio me agradecer enormemente pela mudança que eu fiz no quarto dela. Ela tem um quarto só pra ela que estava muito mal organizando. A localização da cama, do armário, da escrivaninha... Tudo errado. Eu convenci ela que uma mudança faria muito bem e, na madrugada de sexta pra sábado, reorganizamos tudo. Estou descobrindo minhas habilidades de decoradora aqui. Mojmir (Eslováquia) veio me pedir pra colocar as fotos dele na parede, porque ele morre de inveja da minha parede.

domingo, 14 de outubro de 2012

impotência

Meu co-ano, Greg, que está Adriatic College, em Duino - Itália, andou compartilhando um vídeo no Facebook. Deixei ele aberto no meu computador durante toda a semana, esperando arranjar um tempinho para assisti-lo. Hoje, finalmente consegui sentar em Jump Jump e assistir com meus próprios olhos a incerteza e instabilidade do meu país.

Peguei-me com um sentimento absurdo de impotência e odiei estar longe e não poder fazer nada. Mas me dei conta de que não é só a distância. Sempre existe algo acima pra te parar. Lembrei imediatamente de um quadrinho que está na parede de Musala, quando subo para o meu quarto. O medo é sempre bom pra consolidar a democracia.
A política é odiada por Brasileiros, porque ela não funciona. Não importa se é ditadura, se é democracia: o ódio sempre existe. Políticos são porcos ladrões e ninguém quer realmente se envolver com eles. Só as companhias, porque, no final das contas, elas estão por trás de tudo.
E, uau, que ódio da impotência; que ódio da impossibilidade de mudar as coisas. Gente que desiste só porque, sei lá, parece que nada realmente ajuda. Os umbigos tornam-se cada vez maiores, porque olhar para fora, pro geral, e ver a dor, o medo, o perigo é horrível. Sempre é melhor chorar pelo frango do almoço ou pelo estudo excessivo do que tirar a bunda do sofá e fazer algo. Não sei que "algo" é esse. Realmente não sei, então não estou apontando dedos para ninguém. Mas sinto que o Brasil é cercado por medo, sempre encoberto por músicas maravilhosas sobre a beleza brasileira "Moro num país tropical abençoada por Deus e bonito por natureza; em Fevereiro tem Carnaval;". O Brasil fica embaixo de uma nuvem negra, não é mesmo? "Mas..." Mas nada. Não tem "mas", porque não adianta ver o lado positivo. Eu quero mudança social. Mais do que econômica, política ou cultural. Quero melhoria na educação, na saúde, nas condições do povo brasileiro.
E quando eu falo pros meus amigos no UWC que eu amo o Brasil, acho que não é verdade. Não amo o meu país. Amo a natureza, sim. Amo a cultura: na maior parte dos aspectos, excluindo o "jeitinho brasileiro". Mas não amo a entidade, porque o medo que consolida a democracia é sagaz. Tão sagaz quando unhas afiadas encravadas na pele.

"A pobreza gera capital. É uma fonte de riqueza. Mas não para quem é pobre."

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Shakespeare no porão

Quatro horas. Não são tique-taques, são olhares incessantes direcionados para o canto direito da tela do computador. O porão não os permite saber que horas são, ou se ainda há sol do lado de fora. Thou, ele grita. A voz profunda e sedutora. Outra calma, macia, quase sustentável no clima pesado e cansado. Ay, my lord. Alguns desesperados abrem a ferramenta de tradução de um site de pesquisa e digitam mecanicamente todas as milhões de palavras que não parecem ser em Inglês. Nay, nem mesmo o falante nativo consegue ler de forma apropriada. A diretora não consegue segurar o russo. O russo usa casaco, mas a brasileira não. Será frio? Uma pulseira do Bomfim cai depois de dois anos e o que resta é um pedaço de pano torcido e enfiado dentro de um bolso de uns jeans.
Uma mesa comprida, outra redonda. Cadeiras espalhadas ao redor, fios de carregadores esticados pela sala, tentando alcançar dois buraquinhos longínquos. Um pacote rasgado e murcho de deliciosas waffles de chocolate. Um cheiro liberado a cada meia hora que exala pelo cômodo e todos os olhares se voltam para o objeto quando o som soa. Uma garrafa vazia de Coca-Cola zero deitada sobre a mesa - tão cansada quanto os seres humanos na sala. Frustração. Confusão.
[falls and dies]
Apitos de computadores confusos - como o final de uma vida. Uma insistente fala e uma réplica um tanto quanto rude. Uma atmosfera pesada que sobrevoa cabeças e pensamentos. Querem fazer isso ou não? Nem sabem. Nem querem saber. Batatas-fritas que foram esperadas por quarenta e cinco minutos e que são deixadas sobre um prato deixado sobre a mesa. Errado, errado.
Foram tantos atrasos. Será que foi tão importante assim? E-mails impacientes e irritados “Deveria ter me avisado antes de ter ido”.
Mas Shakespeare não espera. Shakespeare não espera estudantes estudarem; não espera estudantes incomodados discutirem os problemas; não espera que consigam; não espera que façam isso direito. E dois atores não aparecem. Polonius e Rainha, onde vocês se esconderam? Talvez devam desistir. E são tantos projetos independentes que a diretora não pode depender dos atores.

hamlet, brigadeiro e project week

Uma manhã gelada em Mostar e uma câimbra insuportável na batata da perna me acordaram pra uma prova de Peace&Conflicts Studies. Digamos que não foi a melhor prova que eu já fiz (assim como ontem a de História também não foi) e depois capotei na mesa por uma hora esperando o resto terminar a prova.
A vida anda... cansativa. Ontem começamos com a maratona de teatro outra vez: 4 horas por dia. Lemos 70 páginas de Hamlet e foi insuportável. Nem mesmo o Spencer (EUA) consegue ler direito, imagina quem nem inglês bom tem! E a Snezjana quer muito que façamos essa maldita peça. Nem a Peya (Namibia), que é quem vai dirigir, quer fazer Hamlet. E, só pra constar, é o IPP (Independent Project - ninguém sabe me dizer o que é o outro "P") dela. Teoricamente, de acordo com o IB, o professor não pode interferir no IPP de um aluno, que é exatamente o que está acontecendo. Pra Peya é difícil, porque ela é um amor, atenciosa e paciente, não sei até que ponto ela vai aguentar dirigir, porque ela não vai conseguir mandar a gente calar a boca e focar. Mas eu sei que ela está se esforçando muito, como percebi quando dei uma folheada no Theatre Experiences dela. Mas enfim, de hoje até Sábado, continuaremos focando no texto, nos cortes de cena e de monólogos não tão importantes. Até porque não faremos o começo da peça.

Finalmente usei uma das 4 latas de leite condensado que meus pais trouxeram pra mim! Fiz brigadeiro e tive um momento delicioso com gostinho de casa no quarto de Peya (Namibia) e Natasa (BiH) com elas, Toam (Israel) e Bengisu (Turquia). Elas gostaram muito (não tanto quanto eu esperava, mas ok) e pra mim foi fantástico comer brigadeiro.
No entanto, foi bem tenso preparar o brigadeiro na cozinha, na frente de várias pessoas e depois sair correndo pro primeiro andar sem dar brigadeiro pra ninguém. Sejamos francos, se você der "um pouco" pra 74 pessoas, no final não sobra nada pra você. Mas eu prometi que depois do Bayram, farei brigadeiro pra geral, daí cada um experimenta um pouco.

Semana que vem: Project Week. Depois de uma frustração geral imensa por conta das propostas de Project Week e a falta de mobilização dos alunos (principalmente locais) pra organizar alguma coisa interessante, me inscrevi pro único Project Week que tinha sido organizando pela própria escola e não pelos alunos:  construir casas em Srebrenica, a cidade onde houve o massacre em 11 de julho de 1995 (é, Isa, seu aniversário) e que foi muito destruída pela guerra. O projeto era algo semelhante ao Teto, basicamente, e me animei bastante pra ir. Construir casas em favelas em São Paulo já é um aprendizado fantástico e uma vivência indescritível. Imagina construir casas numa cidade destruída na BiH? Fiquei absurdamente fascinada. Mas dois dias atrás, somente 15 pessoas receberam um e-mail, falando que estavam partindo pra Srebrenica na manhã seguinte. E a grading session? E os retakes pros segundos anos? Ah, e será que o próprio colégio se deu conta de que a data do Project Week é do dia 12 ao dia 20? Parece-me que não.
Fiquei irritada pela falta de organização e me dei conta (assim como umas outras 40 pessoas que tinham se inscrito pra esse projeto) de que acabaria indo pra um projeto qualquer. Mas a esperança surgiu quando Elisaveet (Grécia) me mandou um e-mail sugerindo que nos inscrevêssemos juntas para o projeto que a nossa segundo ano, Iva (BiH), havia organizado de última hora: uma parceria com um canal de TV chamado PinkTV para fazer uma reportagem sobre o UWCiM. Iríamos para o estúdio deles em Sarajevo, opinar e ajudá-los a editar o vídeo. Fiquei muito animada. E Iva acabou de vir falar comigo no Spanish Room, dizendo que o grupo é eu, ela, Andra (Kosovo), Elisaveet (Grécia), Pasha (Russia), Bebo (Egito) e Dado (EUA/BiH).

Joguei todo esse monte de informação sem explicar o que é Project Week... Basicamente, é um incentivo dos UWCs para que os alunos parem de só falar e falar e realmente façam alguma coisa pra ajudar a comunidade. Essa era a ideia inicial do UWC, mas, no final das contas, acabou virando uma semana em que um grupo de alunos pode fazer uma caminhada longa ou turismo em algum lugar com uma desculpa imbecil de conhecer a cultura (caso de alguns dos meus segundos anos que estão indo pra Istambul). Em alguns colégios, acontece duas vezes por ano, mas, no UWCiM, pela falta de grana, só damos conta de fazer uma vez por ano. E as opções são bem limitadas, porque eles só dão 50 euros pra cada aluno e digamos que a maioria dos projetos exigem mais do que isso. Aparentemente, ano passado, os alunos mandaram e-mails pra todas as companhias possíveis (estilo FUFEI) pra arranjar grana. Mas esse ano o colégio não autorizou que tivéssemos patrocínio, sei lá porquê.

domingo, 7 de outubro de 2012

o IB é real

Sabe, meus co-years tem reclamado muito do trabalho. Não sei porque, mas sinto que eu não tenho tanta lição quanto eles. Talvez por conta das minhas escolhas de matérias... Mas poucas pessoas se dão conta de que o IB e o UWC são muito mais do que sua predicted grades ou grading sessions.
Essa semana, é minha primeira grading session, o que significa que eu tenho provas de todas as matérias. Mas esses resultados são inciais e são +, / ou -, em vez de notas (1-7). Obviamente que a maior parte dos meus co-years estão surtando e reclamando por todos os cantos, enquanto os segundos anos tem milhares de IA's, HI's, WL, TOK essays...
Eu não estou surtando. Na verdade, não sinto que tivemos conteúdo o suficiente pra sentar e estudar por mais de uma hora. Mas o IB é real. O IB não é só um mito. E o que me fez perceber isso foi receber o e-mail do meu professor de Peace&Conflicts falando que essa semana teremos aulas de teatro. Como já expliquei aqui, a professora só vem pra Mostar uma vez por mês. A partir de terça-feira, voltarei da escola às 15h15 direto pra aula de teatro e só sairei do porão de Musala depois das 19h. Temos que começar a preparar Hamlet pro Winter Arts Festival... Não estou preocupada com o tempo pra estudar, porque eu só funciono pra estudar depois das 23h e isso é perfeito aqui. Mas a questão é que, na mesma terça-feira, eu tenho MUN às 15h30 e reunião do Student Council às 15h20. Pena que eu não sou onipresente, como diriam meus pais. Quero muito participar do Student Council, reclamar sobre a nossa nova regra de check-out e a estupidez dos donos de Susac e Musala, mas Theatre é uma matéria e eu não posso matar aulas...
O IB é exigente. Os CASes são exigentes (e muitas vezes emocionalmente complicados...). E eu sinto que o clima em Musala está ficando bem tenso. E mesmo eu não sendo uma pessoa tão preocupada com notas, parece-me que o clima vai me afetar de alguma forma.
Tem um expressão em árabe que diz "موي لصب مويو لسع" ou  "yawm basal wa yawm aaasal" em franco árabe. A mesma expressão em hebraico é ""yom asal yom basal"". "Um dia de cebola, um dia de mel". O que significa que você não pode ter dois dias de cebola seguidos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

desastres naturais, fome e duas horas de paz

Uma semana que começou agitada. Aliás, foi a semana passada que terminou agitada: três terremotos durante a minha aula de História. Na verdade, foram vibrações da terra, mas eu realmente senti e foi como um choque adrenalina. Primeiro, ou melhor, três primeiros terremotos da minha vida!
A chuva de Mostar ameaçou começar. Aqui, quando começa a chover, chove praticamente sem parar por uns dois meses. No começo dessa semana, choveu bastante e todo mundo ficou com medo que não parasse. Mas o tempo abriu de novo e o calor infernal continua...
A terceira agitação (ou quinta) foi ser eleita membro do Student Council. Esse é composto por doze pessoas. Somente três mulheres. Sou a única mulher do primeiro ano, sendo que somos quatro primeiros anos. E das doze pessoas, três são alemãs. Coincidência que a Alemanha é tenha um poder absurdo na Europa e no mundo? Creio que não. E por acaso dois desses três alemães são os Student Representatives, que são os representantes de cada geração na Leadership Meeting, que é, basicamente, a reunião entre todos os professores e diretores da escola.

Meus pais foram embora na terça-feira de manhã, mas na segunda-feira tive a oportunidade de passear com eles e comer um pizza deliciosa em Rondo. Meus amigos ficaram muito feliz em conhecer meu pais e principalmente em poder conversar com eles, porque a maioria dos pais que vem aqui de visita não sabem falar inglês. Meus pais são figuras absurdamente simpáticas e óbvio que todos ficaram encantadíssimos com o jeito de falar e os sorrisos brasileiros. Pena que alguns amigos não tiveram a oportunidade de conhecê-los por estarem em Susac... Droga de distância entre as residências.

Hoje, Peya (Namibia) e Noga (Israel) mandaram um e-mail pra todo o colégio sobre o vídeo que elas fizeram pra um concurso chamado "30 seconds to end hunger" ("30 segundos pra acabar com a fome"). O vídeo delas ficou lindo, lindo, lindo! A narração foi feita pela Noga (dá pra ver claramente o quão bela a voz dela é... quando ela canta me dá arrepios) e garota que aparece nos últimos segundos do vídeo é a encantadora Peya. Não foram elas que editaram o vídeo, na verdade, foram dois caras locais que mandam muito. O vídeo ficou sensacional.


Essa noite, ninguém foi autorizado a sair da residência. Eu sai do Brasil achando que tinha me livrado da torcida Corintiana e foi só chegar aqui e descobrir que, quando tem jogo de futebol, é aconselhavel que ninguém saia. Isso porque o jogo de hoje foi entre times de diferentes etnias e você nunca sabe se alguma coisa vai acontecer... Antes que você entenda errado, isso não significa que vão jogar bombas por aí ou que vão atirar em alguém. Isso é a BiH quase vinte anos depois da guerra. Mas é estilo torcida de time grande quando perde (eu falei do Corinthians, mas era brincadeira, só pra esclarecer), saí por aí fazendo sei lá o quê.
Depois de um longo dia, resolvi fazer algo que eu não fazia a muito tempo: peguei o violão do Quinten (Holanda), minha pasta de música, a chave de Reetta (Finlândia) da sala de música e desci pro porão. Uau! Foram duas horas maravilhosas. Deixei o relógio no meu quarto exatamente pra não ver o tempo passar. Acho que eu nunca toquei violão com tanta paz como a que eu tive lá embaixo.
E agora estou no meu quarto, pela primeira vez em muito tempo (sem ser quando eu venho pra dormir, é óbvio). Nem Aisa nem Veronika estão aqui e acho que é a primeira vez que eu fico sozinha de verdade. Estou ouvindo Bob Marley e comendo uvas.

UPDATE 29.10: o vídeo ganhou a competição!!! 

sábado, 29 de setembro de 2012

entre muros

Foi uma semana longa. Tão longa e tão curta. Mas devo dizer que a aproveitei muito! Tivemos inúmeros aniversários (aparentemente, na Europa, o povo engravida no ano novo e os filhos nascem em Setembro...) de pessoas muito queridas e estamos tendo também chegadas dos últimos co-years: Andra, de Kosovo, chegou ontem (ainda não tive a oportunidade de conhecê-la) e Hawi da Ethiopia e Mohammad do Afeganistão chegam amanhã! A boa notícia é que os três estão em Musala, o que significa que seremos não apenas 19 first years em Musala: seremos 22! UAU!...
A razão de eu não ter conhecido a Andra, que é praticamente minha vizinha, ainda é porque eu não estou em Mostar. Na quinta-feira, depois de ter tido 2 horas incríveis de Modern Dance, encontrei meus pais em frente ao Gimnasia. Depois de um mês, foi completamente natural encontrá-los e devo dizer que foi uma delícia mostrar Mostar para eles.
Ontem, pegamos o carro depois da aula (graças aos meus queridos free blocks, eu não tenho aula na sexta à tarde) e viemos pra Dubrovnik, na Croácia. Uma cidade litorânea maravilhosa que expira história. A primeira surpresa foi a quantidade de turistas em puro final de Setembro. A segunda foi perceber que MUITOS desses turistas são brasileiros. E a terceira foi de cair o queixo: a beleza dessa cidade. Não me refiro à cidade em si, mas à Old Town, que é bem maior e completamente diferente da de Mostar.
É uma cidade fundada por volta do século IIX (mas também se diz que a cidade já existia antes de Cristo...) que foi destruída e reconstruída diversas vezes por conta de guerras e terremotos. Foi um importante posto de abastecimento do Império Veneziano (na época em que Veneza era cidade-mundo e mesmo antes). A cidade foi muralhada no século XII e é exatamente como eu imaginava um feudo. Simplesmente incrível!
Ontem à noite, depois de descer vários lances de escada (Dubrovnik é uma cidade absurdamente íngreme, é mais ou menos como eu imagino a Grécia), alcançamos a rua principal da Old Town, chamada Placa ou Stradun, e nossos queixos caíram. Além da beleza óbvia da Torre do Sino e das catedrais, a Old Town é inteirinha feita de pedra branca.
Passeámos bastante pela Old Town ontem e hoje. Hoje, demos a volta completa na cidade pelo alto, pelos corredores de vigilia e eu me senti... feudal. Os buracos nos muros são exatamente como eu imaginava para que os vigilantes pudessem ver o que estava fora dos muros e também para que puderem atirar. E o Mar Adriático... uau... sem palavras pra cor e pra beleza disso...
A vantagem desse final de semana, além de poder passar tempo com meus pais, obviamente, é poder ter condições boas de vida novamente. Comi zero frango desde quinta-feira, tomei suco em todas as refeições, tomei banho em chuveiro que não é na altura do meu umbigo, tomei um café da manhã decente que não foi croissant de chocolate (não me entenda mal, croissant de chocolate é uma coisa muito decente, mas não pra comer todo dia de manhã)... Colocando dessa forma parece que a vida em Mostar é ruim, mas muito pelo contrário. O que eu aprendi em um mês em Mostar é que não é preciso ter condições incríveis de vida, comida caseira e um quarto só pra você. As pessoas ao seu redor é que fazem a vida boa. Mas mesmo assim, ter um pouquinho de luxo nunca é ruim.




Uma Crônica Brasileira


O sol à pinho nos cansou tanto que finalmente tivemos que parar pra almoçar. Achamos um restaurante gostoso na rua, com as mesinhas ao ar livre debaixo de guarda-sois. Depois de camarões grelhados, arroz e pão com azeite, não tivemos vontade de levantar e ficamos confortavelmente conversando.
De repente, notamos um homem de costas pra nós usando crocs brancos, bermuda xadrez e uma camisa preta de futebol numa mesa próxima e falando em Português por Skype. Pela conversa, pudemos perceber que o homem morava em Dubrovnik e que a mulher com quem ele falava era sua esposa.
Depois de um tempo, vimos o 22º grupo do navio que havia atracado no porto da cidade. Minha mãe já havia falado que com certeza havia brasileiros naquele navio e eu não botei muita fé. Mas não é que, no meio desse 22º grupo, um grupo de pessoas falava a mesma língua que nós?!
A cena seguinte foi épica. O grupo passou por nós e logo em seguida pelo rapaz que falava no Skype. Quando perceberam que o homem falava Português, começaram a berrar e acenar para a câmera do laptop, fazendo a maior festa. Eu e meus pais não conseguimos fazer outra coisa além de rir e nos dar conta de que brasileiro é um pouco muito louco e animado. Não sei se isso só impressiona e encanta os europeus ou se também os assusta um pouco.
Só sei que europeus me assustam um pouco quando se diz respeito ao quanto eles sabem da nossa cultura. Na noite do dia anterior, jantamos próximo à Catedral principal da cidade e tivemos o privilégio de ouvir música ao vivo. Os artistas tinham um repertório bastante eclético e foi uma delícia ouvir músicas tão boas e de origens tão diferentes. Até que eu ouço notas muito familiares repetindo incessantemente e lanço um olhar petrificado para meus pais. É claro que "Ai Se Eu Te Pego" começou a ser tocada e, logo em seguida, cantada. A única coisa que consegui fazer durante os minutos que se passaram com aquela canção ao fundo foi enfiar meu rosto entre minhas mãos e choramingar.
Ainda sentada à mesa pós almoço, contava para minha mãe sobre o bar próximo à minha residência em Mostar que toca música num volume exageradamente alto enquanto ninguém realmente dança ou se diverte lá. Contava que, numa noite, ouvi Rouge, Michel Teló e Gusttavo Lima, o que quase tirou minha noite de sono. Felizmente, minha mãe é uma pessoa culta demais pra saber quem é Gusttavo Lima e eu tive que cantarolar "Che Che Rere Che Che" pra que ela talvez reconhecesse a melodia. No final dessa frase, um homem atrás de nós a completa "Gusttavo Lima e você!" e nos obriga a virar para olhá-lo. Não era brasileiro e conhecia a música. Porque todos na Europa a conhecem. Minha mãe olhou pra mim atônita e nós começamos a rir. Literalmente, rir pra não chorar.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

um pouco de poesia em Kariola

Tomando um café em Kariola Club com Maud (França/Itália), conversando sobre todas as coisas possíveis desde Student Council até a intensidade das relações nesse lugar, nossos pais e psiquiatria. Enquanto esperamos pela sessão de Debate daqui a meia hora, me pego pensando na nossa primeira sessão de International Poetry que aconteceu semana passada, no porão de Musala.
Eu mesma organizei a sessão e foi simplesmente fantástico ouvir poesia em chinês, turco, francês, galês e bósnio. Depois de declamar na sua própria língua, a pessoa lia o mesmo poema em inglês ou simplesmente o explicava.
Abaixo vai um trecho de um belo poema em francês (em homenagem à bela garota sentada ao meu lado!) por Victor Hugo, chamado "Les Djinns".

"Dans la plaine
Naît un bruit.
C'est l'haleine
De la nuit.
Elle brame
Comme une âme
Qu'une flamme
Toujours suit.
La voix plus haute
Semble un grelot.
D'un nain qui saute
C'est le galop.
Il fuit, s'élance,
Puis en cadence
Sur un pied danse
Au bout d'un flot."

domingo, 23 de setembro de 2012

80's party, desfile, "A Branca de Neve e as Sete Anãs" e dormindo no porão

Bengisu é uma das pessoas incríveis que se dispõe a organizar as nossas fantásticas festas temáticas! Parece besta, mas é absurdamente divertido andar pela residência e ver todo mundo se arrumando, bater em uma porta aleatória e perguntar por uma peça de roupa, bater em outra porta e pedir pra garota da Macedônia fazer sua maquiagem... Essa é a vida em Musala.
Se vestir pra uma festa dos anos 80 é ridiculamente fácil: pegue todas as roupas coloridas que você tem e vista-as desde que elas não combinem. E claro que cabelos cacheados são a melhor parte. A pior parte, com certeza, foi andar de Musala até Abrasevic de salto alto e depois tê-los arrebentados enquanto dançava e ter que voltar pra Musala no final da noite descalça. Mas a festa foi maravilhosa, fechou a sexta-feira com chave de ouro. A música foi incrível, embora muita gente tem odiado. A música dos anos 80 é tão bizarra que é completamente dançável.


Pra continuar celebrando os 50 anos do UWC, tivemos um desfile (aqui eles chamaram de "Parade") da Spanish Square até a Old Bridge, cantando e exibindo nossas bandeiras. Foi muito divertido, uma energia muito boa, emoção, sorrisos de uma orelha até a outra, pessoas saltitando e pulando... Foi uma delícia!
Mas sempre me faz questionar o uso que fazemos das nossas bandeiras... Por que elas tem que representar o país de onde viemos? Nesses pequenos momentos, o nacionalismo aparece... Me deparei com uma cena bastante interessante: os 7 alemães e os 7 holandeses cantando seus próprios hinos nacionais e músicas nacionais, como que num duelo. Era claramente uma brincadeira, mas me faz pensar: será que nós percebemos quando o nacionalismo ultrapassa o limite da brincadeira e entra na parte pesada? Porque pra mim é difícil entender essa força que o nacionalismo tem na Europa e como ele está renascendo de novo (o que eu não sabia antes de uma discussão interessantíssima que tivemos em Political Visions and Global Trends). E dizem que o UWC te faz mais nacionalista, o que é loucura...



Anna, eu, Bo e Aurelia

Eu e Bengisu

Saffron (UK) e eu

Peya (Namibia), eu e Elisaveet (Grécia)

Ibrahim (Iraque) dirigindo sua bicicleta pela Old Town

Eu e Filip (Mostar)
Segundo ano adotiva: Ana Dilber (BiH)

O terceiro título desse post pode parecer loucura da minha cabeça. Mas ele se refere ao início de uma nova fase: a fase artística. Já sinto que vou aprender muito, que vou me abrir muito e que vou mudar muito nas aulas de teatro. Duas semanas atrás, eu resolvi ter Theatre como minha 7ª matéria, o que parece besteira, mas eu queria muito experimentar e eu sabia que não ia conseguir aguentar 2 anos sem Teatro.
Tudo começou na segunda-feira, quando eu e Tamar saímos correndo de Political Visions and Global Trends pra não nos atrasarmos pra primeira aula. Isso porque minha roommate, Veronika, que faz Theatre, disse "não se atrasem, é sério". Quando passávamos em frente ao Hotel Bristol, que fica exatamente no meio do caminho entre a escola e Musala, nos deparamos com a turma de teatro dos segundos anos, que nos mandaram correr (eles realmente acham que a gente só correu porque eles mandaram e não porque não queríamos nos atrasar). Chegamos no porão de Musala e entramos no Theatre Studio, esperando pela professora.
Óbvio que eu não caí por nada que aconteceu em seguida, mas os segundos anos fingiram que a professora estava muito brava com eles e com humor horrível. A primeira coisa que eu ouvi Snejana (sei lá como se escreve) dizer foi "shut up, Oliver" e eu vi a cara de assustada da Tamar. Fizeram uma cena ridícula pra fazer ela parecer muito assustadora, mas em uma semana eu percebi a pessoa incrível que ela é e o quanto eu vou aprender com ela.
Snejana mora atualmente na Eslovênia, mas nasceu em Mostar. Já morou na Inglaterra, na França, na Alemanha e em diversos lugares por causa do trabalho. Ela vem pra Mostar uma vez por mês e é quando temos o nosso intensivão de aulas. Dez dias de aulas (incluindo Sábados), três horas por dia. Duas dessas horas trabalhamos junto com os nossos segundos anos, que são simplesmente incríveis. Eles são sete no total: Spencer (EUA), Damir (BiH), Veronika (República Tcheca), Peya (Namibia), Myriel (Austria), Oliver (España) e Bebo (Egito).
Na primeira aula, éramos 9 primeiros anos. Mas agora já considero que somos 7 (Ajsa trocou Theatre por German Ab initio e Victor nunca aparece nas aulas...). Por isso o título do post. Snejana significa "Branca de Neve" na língua local e, coincidentemente, somos 7 garotas e todas meio baixas. Somos eu, Bengisu (Turquia), Lushik (Egito), Tamar (Israel), Amina (BiH), Elisaveet (Grécia) e Anna (Holanda). Nossa Branca ficou bastante animada com nossa turma (embora ela não seja uma pessoa que demonstra muitas emoções...), disse que esse ano vai ser muito bom. Ela já está procurando peças pra começarmos a trabalhar. O primeiro ano vai ser bem prático e só no segundo ano vamos começar a escrever e trabalhar bastante. Por enquanto, estamos brincando com tipos de movimentos e qualidades dos mesmos, e também brincando com improvisações.

A última celebração dos 50 anos foi uma noitada no porão de Musala pra todos aqueles interessados, de sábado para domingo. O tema da noitada foi "Mudança Climática" e assistimos 3 filmes. Ok, eu só assisti um, porque acabei dormindo no segundo e subi pro quarto da Bengisu no 3º. Mas depois de assistirmos "Uma Verdade Inconveniente", que foi um dois filmes mais idiotas que eu já vi na minha vida (graças a uma discussão que eu tive com Ettore uns meses atrás que realmente me fez duvidar sobre o aquecimento global e como a mídia o divulga), tivemos uma conversa bem interessante. Éramos por volta de 30 pessoas, acho. Claro que todo mundo falava sobre mudanças, sobre como os governos não fazem nada e eu levantei a mão e perguntei quem sabia o que era a "Rio +20". Acho que só 6 pessoas levantaram a mão e devo dizer que não fiquei surpresa, já que a Conferência não foi, admitamos, nenhum sucesso. Mas acho interessante o quanto as pessoas reclamam, reclamam, falam, falam e não fazem a menor ideia do que está acontecendo. As pessoas engolem as informações de um filme como esse do Al Gore e nem param pra buscar o que está por trás daquilo. Qual é o interessante econômico por trás do aquecimento global? É uma questão absurdamente complicada.

PS: esse post ficou tão gigantesco que me dá sono só de olhar pra ele...
PS2: estou morrendo de sono e tenho que estudar pra prova de Biologia de amanhã... é nisso que dá socializar o dia inteiro e estudar depois do check-in.
PS3: é estranho dormir na minha cama de novo depois de 3 noites seguidas dormindo na cama de Tijana, que é roommate de Bengisu e Ana Dilber, e que esteve na sua casa pelo final de semana.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

indagações de uma sexta-feira

Depois de uma bela cerimônia de celebração dos 50 anos do UWC, com direito a "Fix You" por Cristina e Myriel (Áustria) e discursos da headmistress, de uma funcionária do escritório do UWC em Londres (que leu o discurso da Rainha Noor da Jordânia, que é a presidente do UWC) e de outras figuras importantes (como os lindos do Vladmir e da Iva, que foram os oradores), fomos jogados no meio de uma realidade.
De uma, não. Fomos jogados na realidade dos desastres. Na realidade da fome, da guerra, do sofrimento. Um vídeo de talvez 5 minutos pareceu durar anos. Todos os olhos vidrados na imagem projetada e os ouvidos enchidos por uma música dolorida, com uma melodia desesperada. Era como um pedido de socorro. Como se o mundo gritasse desesperado, mostrando crianças passando fome, comunidades sofrendo pós desastres... A Bósnia-Herzegovina nos anos 90, o Haiti em 2010, a Síria em 2012...
Quando o vídeo terminou, todos levantaram aos poucos de suas cadeiras e aplaudiram. Mas ninguém sorria. O vídeo era um trabalho de arte feito por dois alunos de um colegial aqui em Mostar. Todos aplaudiam o trabalho, mas nenhum sorriso aplaudia o mundo. E os 50 anos do UWC foram marcados por um choque, por um tapa na cara de todos nós.
Saímos da sala não em silêncio, mas também não em euforia. Senti um peso no meu ombro e minha cabeça pulsava. E ainda tínhamos um almoço de comemoração pela frente. Tudo que eu queria era deitar e ouvir um pouco de música. A gente sempre evita assistir esse tipo de coisa. E horas depois de assistir, esquecemos, porque não queremos lembrar que o mundo é muito ruim e terrível lá fora.
Reclamamos das máquinas de lavar que tremem e parecem que vão explodir... da falta de luminárias pra todos, do cheiro do porão, do excesso de frango nas refeições, da falta de talheres pra todos e de tantas outras coisas... E ninguém lembrará amanhã do vídeo que vimos.